Blog do Erich Beting

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21/03/2009

Europa unida. E o Brasil?

Acostumamos a ouvir a ladainha, nas décadas passadas, de que o futebol no Brasil só se desenvolveria como negócio quando adotasse o modelo europeu de gestão. Por aqui, os dirigentes sempre disseram que isso era impossível, que a realidade europeia é muito distante da brasileira, que não dá para equiparar a força de uma economia a outra e cositas similares. Depois de mídia e esporte radicalizarem nas opiniões (cada um para um lado), eis que finalmente o futebol brasileiro acorda para o que deve ser feito. Olhar para fora e trazer o que for bom, adaptando o exemplo europeu para o modelo brasileiro de ser.

Melhoramos muito, evoluímos em muitas questões (os programas voltados aos torcedores são uma prova disso), nem tanto em outras (cadê a organização dos campeonatos em ligas que representem APENAS os participantes da mesma divisão??). Mas a mentalidade do futebol ainda é muito arredia a ser ágil e trazer para cá os ótimos exemplos de fora.

Enquanto nossos dirigentes (inflados pela mídia, sem dúvida) seguem discutindo qual deve ser a carga de ingressos para um jogo, na Europa as ligas perceberam que a queda de braço tem de ficar restrita, na maioria das vezes, dentro de campo. Neste final de semana, as principais entidades que organizam os campeonatos do Velho Continente se uniram para ajudar a erradicar a pobreza. Usaram a força do futebol para fazer política do bem.

Sim, tem muito dirigente, que tal como cá, não vale nada. Mas os europeus perceberam que, se usarem a força do futebol para ajudar o próximo, vão ter muito menos dor de cabeça para governar e se perpetuar no poder (esse exemplo foi o Brasil quem exportou!).

A matéria está na Máquina do Esporte desde ontem:

As principais ligas da Europa se uniram com a FAO, braço da ONU para assuntos de agricultura e alimentação. O acordo é simples. Atletas de renome (atuais e do passado), vão fazer uma campanha nos jogos deste final de semana pedindo doações para projetos sociais da FAO. Denominado "Encontros do Futebol contra a Fome", a proposta é usar o ídolo para levar comida a quem não tem condições de comer.

Simples, prático. É um "Criança Esperança" da bola. Com uma força de mídia e de cativar as pessoas muito maior do que a da Globo. Está na hora de o futebol brasileiro se unir. Por que os campeonatos estaduais não podem fazer isso daqui a umas duas rodadas, usando os ídolos regionais, de hoje e de ontem, para desenvolver tal ação?

Por Erich Beting às 18h58

Uma boa pergunta

Foi feita pela leitora Bibiana Moreno num dos comentários de ontem:

"Até onde contratos de curto prazo, como esse (Corinthians e Batavo), auxiliam um clube que não tem estádio e ainda tem dívidas que está pagando? Sei que existem estratégias de gestão e marketing que poderiam ser muito mais duradouras do que muita grana em pouco tempo e nada daqui a 10 meses... Não vejo essa ideia como boa estratégia. O que você acha?"

A pergunta é bem legal e nos leva para uma discussão que envolve o conceito sobre a construção de um relacionamento entre uma marca e uma propriedade esportiva, seja ela clube, federação, atleta ou evento. O "Estadão" de sexta-feira publicou uma lista com os patrocinadores na camisa do Corinthians desde 1982, quando foi permitido esse tipo de patrocínio no Brasil. Desde então, a lista contabiliza 12 empresas. Já estiveram na camisa do Timão, entre outros, Bombril (apenas na final do Paulistão-82), Pepsi (2000 ao fim de 2004), Samsung (2005-2007) e Medial Saúde (2008). Mas de qual marca as pessoas mais lembram?

Quase sempre é da Kalunga. A rede de lojas para materiais de escritório patrocinou o Corinthians de 1985 a 1994 (nove anos, o maior período entre todos os patrocinadores que já andaram pelo Timão). Sim, naquela época era muito mais um acordo em troca do dinheiro que Damião Garcia, proprietário da rede, injetava no clube de seu coração. Mas foi suficiente para ajudar a Kalunga a se tornar uma marca conhecida nacionalmente e hoje a principal loja do país no gênero.

Da mesma forma, o palmeirense quase sempre se recorda da Parmalat quando lembra do patrocinador. Flamengo e Petrobras estão juntos desde 1984, no mais longo contrato de patrocínio do futebol nacional. No vôlei, praticamente não se pensa em seleção brasileira sem se lembrar do Banco do Brasil, patrocinando o time nacional desde 1991. Na França, o Lyon tem a lembrança de um time campeão sempre ligada ao Novotel, que começou a patrocinar o clube quando ele estava na terceira divisão e, hoje, é heptacampeão francês.

No fim, todas essas associações são boas para as marcas. E para o esporte.

A grande questão, porém, é que os valores no patrocínio do futebol no Brasil estão mudando muito nos últimos anos. Os clubes já estão mais preparados para conseguir outras fontes de receita e, com isso, vão atrás de um patrocínio cada vez maior, sabendo que essa é a propriedade mais importante que ele tem a oferecer. Internacional e Grêmio são os melhores exemplos disso. Os dois clubes de Porto Alegre têm, hoje, mais dinheiro vindo dos projetos com os sócios do que com o apoio do Banrisul (que é de apenas R$ 3 milhões ao ano!). Atualmente, ambos poderiam "peitar" o atual patrocinador e buscar outra forma de levantar essa grana que recebe do patrocínio, à espera de uma negociação mais valiosa.

Mas aí surge um outro problema, que é a atual situação do mercado. O São Paulo, calcado em novos acordos que não envolviam a camisa, adotou a estratégia de não continuar com a LG, indo em busca de um patrocinador que pagasse R$ 30 milhões ao ano. Não conseguiu e, com isso, renovou com os coreanos por R$ 18 milhões, tendo apenas o aumento no contrato atrelado à inflação do ano passado. O Corinthians, ao fazer um contrato de apenas 10 meses, assume outro risco. O clube confia que, em 2010 (ano do seu centenário), esteja na disputa da Copa Libertadores. E isso dê ao Corinthians um valor de mercado ainda maior.

Mas, para a empresa, qual o benefício de ficar menos de um ano no clube? Vale apenas a exposição naquele período? É como você mudar de emprego a cada nova proposta que surge. Não seria melhor esperar um pouco mais, construir um relacionamento mais longo na empresa em que está? E o próprio clube não percebe que a relação de longa data com uma marca só lhe dá benefícios. Porque é possível aumentar os valores de contratos e, principalmente, não se resumir apenas à exposição na camisa, criando outras formas de gerar dinheiro.

Flamengo e Petrobras não poderiam criar cartões para o torcedor flamenguista só abastecer seu carro nos postos da marca? A LG não poderia faturar com uma linha de televisores do São Paulo? Por que o Banrisul não cria toda uma conta de banco personalizada para o torcedor gremista ou para o colorado?

Muitas vezes, o que falta é, tanto na empresa quanto no clube ou na entidade esportiva, uma pessoa que tenha como função pensar de que forma os dois lados podem ganhar ainda mais com o patrocínio...

Por Erich Beting às 09h45

20/03/2009

O negócio da imprevisibilidade

Nunca um campeonato de Fórmula 1 foi tão emocionante quanto o de 2008. Quer dizer. Nunca pelo menos desde que Michael Schumacher começou a pilotar e a estraçalhar recordes. A "subida Timo Glock" de Interlagos, o carro do alemão derrapando, a vitória na última curva de Lewis Hamilton. Tudo colaborou para que o mundo inteiro, naquele final de semana e dias subsequentes, falasse do GP Brasil de Fórmula 1 e da mais do que emocionante decisão do título.

E, nesta semana, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) quase botou tudo isso a perder. Sim, porque é ela quem dita as regras a F1, apesar de não dar as cartas em quase nada da categoria. Ela funciona como a maioria das federações de futebol na Europa, que não gerenciam as ligas locais, mas são elas que determinam em quais moldes o campeonato será disputado.

E foi isso que a FIA fez. Ou melhor, tentou fazer.

Porque não é ela quem dita o negócio da Fórmula 1. Deu no que deu. Pilotos, montadoras e, principalmente, executivos de marketing das escuderias e dos patrocinadores, se revoltaram contra a decisão de determinar o título do campeonato ao dono do maior número de vitórias. E conseguiram, com ajuda óbvia da opinião pública, mudar a opinião de quem dita a regra, mas não a grana do evento esportivo mais caro do planeta.

Porque dar o título a quem conquistar mais vitória pode, antes de mais nada, recolocar a F1 na era Schumacher. Em que só um ganhava. E todos sabiam disso. Sendo assim, do que valia ver a corrida pela TV? Os índices de audiência caíram em todo o mundo e, com eles, o interesse do público pelo esporte. Isso fez com que as empresas começassem a esquecer que a F1 pode ser um grande negócio. O que seria um grande pesadelo para orçamentos na casa de 200 milhões de dólares ao ano.

Com o campeonato decidido na última curva, toda a mídia voltou para a Fórmula 1. Quanto mais imprevisível for o resultado do esporte, melhor negócio ele vai ser.

E essa é a regra que dita a F1. Desde os anos 70...

Por Erich Beting às 20h29

Será que vale?

Não, ainda não vou falar do ranking dos patrocínios dos times de futebol no Brasil. Até porque é um assunto que gera bastante espaço para diferentes análises. Agora quero ver a opinião sobre notícia da Máquina do Esporte de ontem, também produzida por diversos outros veículos. O Bikkemberg Fossombrone, apesar do nome de mafioso de filme, é um time da quarta divisão do futebol italiano. E apresentou nesta semana seu novo uniforme (abaixo, foto de reprodução do site do clube).

Foto bacana, muito bem produzida, e que revela de cara a proposta do Fossombrone. Hoje, quem banca as contas do time é o escritório do estilista Dirk Bikkemberg, que por sua vez dá nome ao time!!! E, além disso, a camisa é a reprodução do logotipo da Samsung, patrocinadora oficial do Fossombrone a partir da atual temporada. Não, você não viu errado. Os caras mudaram o uniforme do clube para atender diretamente ao patrocinador!

Imagine se, em cinco anos, o Fossombrone chega à Série A do Calcio? Como será a repercussão disso para a Samsung? Quer mais chance de obter grande retorno de marca do que esse? Você acha que seria possível pensar em algo assim num clube que não seja de quarta divisão, em qualquer país?

Por Erich Beting às 19h47

Preencha os espaços vazios

Daqui a uma hora Corinthians e Batavo anunciarão os detalhes do acordo de dez meses de patrocínio, em evento na sede da empresa, em São Paulo. Existe a expectativa de que Andrés Sanchez, o presidente corintiano, já diga quais serão os patrocinadores das mangas e do calção do uniforme alvinegro.

O clube já tem o contrato feito, inclusive com valores e cláusulas. Serão R$ 7 milhões para a empresa que ocupar o espaço disponível na manga. E outros R$ 5 milhões do patrocinador do calção.

Falta um "pequeno" detalhe.

O nome das empresas.

O contrato, que até já foi analisado juridicamente pelo clube, está com o espaço vazio no lugar onde geralmente se colocam nome e dados cadastrais do patrocinador.

Tal qual na velha e boa aula do colégio, alguém se aventura a preencher esses espaços? Algum palpite?

Por Erich Beting às 13h36

Bem-vindo

Negócios do Esporte, negócios no esporte, marketing esportivo... Não importa muito o nome que se dá para isso, mas o fato é que hoje o esporte passou a ser, no Brasil, parte da indústria do entretenimento, como é a cultura. Se, há dez anos, o termo marketing esportivo geralmente nos associava a algo pejorativo, que lembrava muito mais negociata do que negócio, hoje não dá para se pensar muito no esporte sem o marketing, a estratégia de comunicação, o patrocínio. Tanto que, desde 2005, já conseguimos trazer aqui para dentro do mesmo UOL o noticiário sobre os negócios do esporte com a Máquina do Esporte. E agora ganhamos mais este espaço para falar de como o negócio influencia diretamente no cotidiano do esporte.

Quer um exemplo? O acordo Corinthians-Batavo movimentou a imprensa e foi notícia em todos os veículos de comunicação do país ontem e hoje. E, desconsiderando as mesmas exceções de sempre, o nome do patrocinador foi dito, escrito e mostrado. Sem preconceito, sem achar que se fazia "propaganda gratuita" da empresa que injetará R$ 18 milhões nos cofres do Timão. Porque, com esse dinheiro, o Corinthians poderá manter Ronaldo no time. E poderá contratar ou revelar outros jogadores. Poderá fazer o tão sonhado título da Libertadores se concretizar...

E essa é a ideia central do "Negócios do Esporte". Por aqui sempre vamos fazer com que o esporte seja analisado do ponto de vista do negócio. E que a indústria do esporte consiga girar mais e melhor, construíndo cada vez mais torcedores e consumidores, mais atletas e, principalmente, mais profissionais capacitados para trabalharem nesse "negócio". Porque hoje já não é mais tão feio assim ganhar dinheiro com o esporte. Aliás, é possível ganhar dinheiro com esporte e ser feliz trabalhando assim.

Aproveito a mensagem inicial para agradecer aos parceiros do UOL, que tornaram possível mais essa empreitada. Murilo, Gimenez e Régis, obrigado pela chance de aprofundarmos ainda mais esse tema no portal de maior credibilidade do país!

E você, leitor, seja muito bem-vindo. Discuta, debata, pergunte. Mas entenda que aqui não há partidarismo, patriotada, preferência clubística ou de modalidade esportiva, etc. Há interesse em ver com outro tipo de visão o que acontece no dia-a-dia esportivo. Por que só com boas discussões faremos o esporte se desenvolver como negócio no Brasil.

Por Erich Beting às 13h28

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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