Blog do Erich Beting

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28/03/2009

Futebol x Marketing

"Futebol é um jogo antes de ser um produto, um esporte antes de ser um mercado, um show antes de ser um negócio".

A frase é de Michel Platini. Mas não aquele Platini, ex-craque da seleção francesa. A frase é do presidente da Uefa, Michel Platini. Que ontem, sexta-feira, distribui às entidades filiadas à Uefa um documento com os "11 princípios da Uefa para o futuro do futebol".

O recado de Platini representa uma lenta e gradual transformação no comando da Uefa. Congregando todas as seleções da Europa, nos últimos anos a entidade ficou mundialmente reconhecida pela excelência na gestão da Liga dos Campeões da Europa, a maior competição entre clubes do mundo.

Investindo maciçamente no marketing, a Uefa transformou a liga na menina dos olhos de qualquer clube europeu. Além de prestígio, disputá-la representa alguns milhões a mais nos cofres de um clube. Naqueles de pequeno e médio porte, então, disputar a liga é sinônimo de caixa no azul por pelo menos uma temporada, sem contar a moral que o presidente ganha por ter chegado a Champions.

Mas Platini não quer que o marketing desvirtue o princípio do futebol. Craque que foi, o francês quer preservar a essência do jogo. Mas como desassociar futebol do marketing nos dias de hoje?

Esse será o maior desafio de Platini à frente da Uefa. A primeira ideia, de unir a Liga dos Campeões e a Copa da Uefa numa única e grande competição já foi totalmente rechaçada pelos clubes. Qual será a próxima?

Por Erich Beting às 16h32

Com Ronaldo, mas sem "couvert"

O Corinthians entra em campo logo mais às 21h10 para enfrentar o Guarani, no estádio Brinco de Ouro, em Campinas. O atacante Ronaldo foi confirmado pelo técnico Mano Menezes. E, pela primeira vez, o Corinthians não vai faturar nenhum tostão numa partida com seu principal jogador.

Diferentemente dos jogos contra Itumbiara e Palmeiras, o Timão não cobrará do adversário uma porcentagem sobre a renda de bilheteria da partida. A prática havia sido adotada pelo presidente Andres Sanchez como forma de tentar levantar mais dinheiro para ajudar a pagar o salário de Ronaldo.

Com o patrocínio de R$ 1,8 milhão mensais com a Batavo assegurado, o mandatário corintiano abriu mão de cobrar para Ronaldo jogar quando o Timão não é mandante. Assim, o Guarani poderá celebrar o recebimento de toda a receita com venda de ingressos para o jogo. A expectativa é de casa cheia, e cerca de meio milhão só com os bilhetes...

Por Erich Beting às 15h06

27/03/2009

Ronaldo Fenômeno... e o fenômeno Ronaldo

Por EDUARDO CORCH*

Com 17 anos, já percebia-se que era diferente. O jeito moleque, descompromissado, o sorriso escancarado, ainda com dentes desalinhados, o faro pelo gol...

Assombrou o mundo e as defesas adversárias na Holanda, na Espanha e na Itália. Bicampeão do mundo com a seleção brasileira, diversos títulos europeus. Sentiu também as agruras de três cirurgias e o doloroso processo da recuperação e volta aos gramados. Sua vida pessoal também é recheada de polêmica: namoros, casamento-relâmpago, dois filhos, festas, bebida, confusões...

Esse é o Ronaldo Fenômeno, que dispensa maiores apresentações.

Último bimestre de 2008, o mundo já não é o mesmo após a crise do mercado financeiro. Vamos relembrar alguns fatos de personagens brasileiros:

- Corinthians: sofrendo ainda da ressaca emocional de ter disputado a série B, sem patrocinador após a recusa da Medial Saúde na renovação do contrato. Resquícios ainda das três parcerias conturbadas com fundos de investimento: Excel, Hicks Muse e MSI. - Ronaldo: voltando da terceira cirurgia, pensando em aposentadoria. Sem jogar há meses, deprimido, visivelmente fora de forma e com a imagem arranhada após o escândalo no Rio de Janeiro envolvendo travestis. - Nike: às vésperas do término do contrato, crise com seus clubes patrocinados no Brasil, Corinthians e Flamengo. Um dos seus principais jogadores patrocinados (com contrato vitalício) prestes a abandonar os gramados. - Federação Paulista de Futebol: o Campeonato Paulista, seu único torneio de grande porte, colocado em xeque por clubes, torcedores e imprensa. - TV Globo: tentando responder uma única pergunta: onde é que isso tudo vai parar? - Imprensa em geral: procurando o que falar!

Era o cenário perfeito. O Corinthians, talvez numa ação tão grandiosa ou maior que a Democracia Corinthiana de Sócrates e Casagrande, abala o mundo esportivo e dos negócios ao anunciar a contratação de Ronaldo.

E rapidamente a “bomba” se espalha por todos os cantos do planeta. Em cantinas italianas, botecos espanhóis, cabelereiros franceses, supermercados chineses, pet-shop australiano, as perguntas que não queriam calar:

Será que ele vai jogar? Voltará a ser Ronaldo? Três cirurgias? Fora de forma? Ou é puramente uma jogada de marketing?!?

Boa parte da imprensa e dos torcedores adversários desdenham e desvalorizam a volta do jogador ao Brasil, por se tratar TAMBÉM de uma jogada de marketing. Qual o demérito de tal estratégia? O que isso desabona o clube, seus dirigentes e o atleta?

Desde os primórdios do marketing esportivo, capitaneado pela ISL, pela NBA e pela Premier League inglesa que são desenvolvidas ações com objetivos claros e lícitos de geração de receitas, valorização da marca, crescimento do número de torcedores, aumento de audiência, popularização do esporte, etc.

Vale relembrar a febre David Beckham. Sem questionar suas virtudes futebolísticas, o inglês é uma máquina de fazer dinheiro. Casado com a também midiática Victoria “Posh Girl”, detém contratos milionários com diversas empresas, gerando receita e paixão por onde passa.

O Real Madrid, acertadamente, ao anunciar sua contratação convence o jogador a não usar a camisa número quatro para evitar "mal estar" com os milhões de fãs asiáticos, onde o número é sinal de mau agouro.

Não podemos esquecer da sua transferência para disputar a MLS, liga americana de futebol. Teve o propósito claro de dar novo impulso ao esporte em terras ianques, mercado onde o futebol com os pés não tem o mesmo destaque daquele praticado com as mãos.

E no Brasil, por que não realizar ações semelhantes? Por que não valorizar estratégias bem sucedidas? Sim, devemos elogiar e enaltecer o Corinthians....

No primeiro trimestre de 2009, economistas preveem a recessão na economia brasileira. Como vão aqueles mesmos personagens?

- Corinthians: Recupera sua credibilidade principalmente com seu torcedor. Maior poder de barganha para negociação de novos contratos de patrocínio. Aumento da receita de bilheteria e venda de produtos licenciados. - Ronaldo: de novo na mídia e agora por boas razões. Sorridente, volta a sonhar com a seleção brasileira. Possibilidade de novos contratos publicitários. - Nike: renova o contrato de patrocínio com o Corinthians, aumenta a receita e venda de produtos do clube. Está radiante com a possível longevidade do seu principal atleta. - Federação Paulista de Futebol: Estádio cheio, parceiros comerciais aliviados, reafirmação da força da competição. - TV Globo: que tal a audiência gerada nas partidas do Corinthians? Seus anunciantes estão tristes? - Imprensa: notícias para dar e vender!!!

Esse é o fenômeno Ronaldo!!!

Um dos fatores de sucesso para o esporte é a sua capacidade em revelar ídolos que possam inspirar multidões. Que transformem a paixão em consumo, que atraiam investimento em clubes, propriedades e eventos esportivos.

Qual empresa não gostaria de ter uma base de 25 milhões de pessoas, apaixonadas e ávidas para consumir seus produtos?

Deixamos a paixão clubística e a rivalidade por alguns minutos.

Parabéns Corinthians, boa sorte Ronaldo!

* Eduardo Corch é são-paulino, mas fã de belos gols e entusiasta de grandes sacadas de marketing

Por Erich Beting às 17h18

Mídia e Esporte

A Stock Car foi mais uma modalidade que resolveu aderir à força midiática da Globo. Em vez de manter a categoria como estava, a Stock mudou regras, e a principal delas está na inserção de um pit stop obrigatório durante a prova, para a troca de pneus.

A medida tem como objetivo deixar a prova mais equilibrada. E, também, atraente para a Globo, que nas quatro corridas que eram no sábado no ano passado e agora passarão a ser no domingo, passará a transmitir desde o pit stop.

E o que a Stock ganha com isso?

Ganha a exibição da prova, mesmo que parcialmente, na Globo. Para os pilotos, isso tem um valor considerável quando é preciso vender um patrocínio. Afinal, o Brasil é um país com uma situação muito peculiar na mídia. Uma única emissora detém quase a metade da audiência no esporte.

Só para se ter uma ideia, nos EUA, os índices do Superbowl, que é o maior evento esportivo para a televisão, alcançam de 6 a 7 pontos na audiência no horário nobre! Para a Globo, isso é impensável de ocorrer, muito menos na faixa mais valiosa, que é à noite.

O caso da Stock, assim como o da Superliga de vôlei (que adaptou o formato da competição para ter as finais de cada turno exibidas na Globo), é emblemático para mostrar a força que a mídia tem para a construção do esporte.

Com a exposição que a TV dá, a modalidade tem a opção de crescer. No caso da Stock, esse ganho é duplo, porque a Globo também participa da negociação de cotas para a modalidade. E, dessa forma, ambas conseguem obter uma receita do produto que passa a ser o evento esportivo. Ou, nas palavras de Carlos Col, organizador da Stock:

"Não existe exigência da Globo, é uma relação de parceria. O que existe, sim, são condições, e é preciso respeitá-las".

Esporte e mídia devem se unir. Para o bem dos dois.

Por Erich Beting às 14h58

Com ou sem teto?

Matéria de hoje assinada por Eduardo Arruda e Paulo Galdieri na Folha de São Paulo (só para assinante Folha ou UOL) deixa no ar a possibilidade de o futebol brasileiro vir a adotar um teto salarial para os clubes. Diz a reportagem que a medida tem como motivo a crise que se avizinha, mas bem que essa criação de um limite com o gasto no salário dos atletas poderia ser uma evolução, em vez de solução.

Limitar custos é a premissa básica de quem precisa pagar funcionários. Saber o quanto você tem para poder pagar é a regra para manter em funcionamento uma empresa. Atualmente, com a legislação mais severa, o dirigente de clube no Brasil teve de aprender na marra a ser mais racional quando o assunto é folha de pagamento.

Mas o abuso continua. E não só no futebol (que o diga o time feminino de vôlei do Banespa, que era bancado pela Medley e hoje não tem nem 12 atletas na Superliga).

O fato é que a ideia do teto é boa, mas talvez não nos moldes que a Folha coloca. Porque o limite de gastos não pode ser proporcional à receita do clube. Se isso acontecer, o futebol brasileiro passará por um irreversível processo de abismo entre os mais ricos e os mais pobres.

Os patrocínios dos clubes de São Paulo e Rio, por uma lógica de mercado, sempre serão mais altos que os dos demais clubes. A distribuição da cota de TV também já gera uma considerável separação entre as equipes. A receita de bilheteria e venda de produtos é outro fator de desnível. E não é por aí que você irá limitar o gasto com atletas.

Imagine se o Santo André, recém-promovido à Série A do Brasileiro, fecha um acordo com uma empresa e essa companhia banca a contratação e os pagamentos de salários de um jogador como o Ronaldinho Gaúcho. A receita do Santo André provavelmente não seria suficiente para bancar esse salário, mas existiria um outro projeto que garantiria isso. Qual seria então o sentido de vetar essa contratação?

Porque em vez de um teto salarial conjunto não se estabelece uma regra mais simples, mas muito mais dolorosa?

Para o clube disputar uma competição, ele precisa estar com as contas no azul. Ou com todas as dívidas equacionadas e em processo de pagamento. Aí sim a racionalidade na gestão passaria a ser obrigatória.

Por Erich Beting às 07h48

26/03/2009

O valor do Corinthians

Para quem está curioso em saber quanto vale o Corinthians com e sem Ronaldo, segue link de matéria que acabou de ser publicada na Máquina do Esporte.

Por Erich Beting às 19h33

O barato do licenciamento esportivo

Os números são pouco divulgados. E, quando são, na maioria das vezes não são tão críveis assim. Mas é fato que existe ainda um bom mercado a ser explorado na área do licenciamento esportivo. Nos Estados Unidos, essa é uma das maiores fontes de receita das franquias dos mais variados esportes. Na Europa, é uma forma de os clubes de futebol reforçarem suas marcas e de faturarem uma graninha a mais.

Só que o maior mercado para esse tipo de produto ainda é o atleta. Mais uma vez, os exemplos vêm de fora. Ou quase todos.

Em abril próximo, será lançado aqui no Brasil uma estatueta que é uma réplica de 35 centímetros do Ayrton Senna (logo abaixo, reprodução do boneco, divulgada pela assessoria de imprensa do fabricante Pizii Toys). Mais legal ainda é que o produto terá apenas 2,5 mil unidades à venda, e toda a receita será destinada ao Instituto Ayrton Senna (IAS), projeto social tocado por Viviane, irmã de Ayrton, morto em 1994.

É exatamente numa ação como essa que nós percebemos a força do licenciamento de um produto com a imagem de um atleta. Já são quase 15 anos desde que Senna morreu na Tamburello. Desde então, ele não dá entrevistas, não ganha provas, muito menos títulos. Mas sua imagem permanece gravada na mente das pessoas.

E por que isso acontece?

Além do carisma que o acompanhou, da trajetória brilhante e da mídia favorável, Senna teve, a partir do trabalho do Instituto e de Viviane, uma excelente gestão de artigos licenciados. Para financiar o IAS, a empresa Ayrton Senna Licenciamentos gerencia uma gama de artigos com a marca principal (o famoso S) e as sub-marcas do piloto (o Senninha é um exemplo entre vários).

Com isso, vamos às lojas e vemos produtos do Senna. Saímos para o supermercado e temos o espumante com a marca de Ayrton. Nas papelarias, os cadernos com a cara de Senninha.

Por que Pelé não pode ser uma marca que vai além de um café? Ou, então, por que não vemos produtos com as caras de Marcos, Rogério Ceni, Oscar, Tande, Giovane, Daiane dos Santos, Guga?

Falta de ídolos, sem dúvida, não é. Será que falta vontade? Ou ideia?

Por Erich Beting às 19h27

Ronaldo já "pagou" 5 salários

Com apenas cinco jogos disputados, Ronaldo já conseguiu “pagar” cinco meses de salários no Corinthians. A presença do atleta em campo fez com que o alvinegro recebesse R$ 2,011 milhões com a venda de ingressos, já descontados todos os impostos e taxas existentes.

Isso significa que, em média, a cada partida em que tem Ronaldo, só com a bilheteria o Corinthians consegue pagar um mês de salário do seu mais ilustre jogador. Mensalmente, o Fenômeno recebe R$ 400 mil, maior rendimento do time. Rendimento que, a cada partida, mostra que se paga só pela força de sua imagem.

O frenesi que a presença de Ronaldo tem causado no torcedor corintiano rende dinheiro até para a prefeitura de São Paulo. Apenas com o aluguel do estádio do Pacaembu nos jogos em que o atacante esteve presente, foram R$ 348.929,33 arrecadados pelo município paulistano.

Mas não é só o Corinthians e a prefeitura que festejam a presença do atacante em campo. Os adversários do clube também aumentam suas receitas a partir da escalação do atleta. Em Itumbiara (GO), jogo que marcou a estréia de Ronaldo, o time mandante amealhou R$ 175 mil com a venda de ingressos, já descontadas todas as taxas. O Corinthians ficou com a parte maior da receita líquida do jogo: R$ 252,6 mil, num acordo previamente feito com a diretoria do Itumbiara.

Maior rival corintiano, o Palmeiras foi outro que faturou. Foram R$ 594 mil com a bilheteria do clássico, quando Ronaldo fez seu primeiro gol com a camisa alvinegra. O valor, correspondente a 60% do total da bilheteria, foi o maior obtido pelos palmeirenses nos jogos do Paulistão.

Nessas horas dá para entender porque Andres Sanchez, presidente do Corinthians, tem exigido do time mandante uma porcentagem da renda de bilheteria quando Ronaldo joga fora do Pacaembu. E você, concorda com isso?

Por Erich Beting às 18h34

Ronaldo: R$ 1 milhão por jogo

A partida de ontem entre Corinthians e Ponte Preta fez com que Ronaldo atingisse a média de quase um por jogo. Não, o assunto aqui não é a performance do artilheiro Ronaldo, que mesmo fora de forma já faz praticamente um gol a cada partida que disputa pelo alvinegro (foram quatro em cinco jogos).

Falemos aqui do marketeiro Ronaldo.

A cada jogo com o atacante em campo, só em receita de bilheteria, é gasto quase 1 milhão de reais pelos torcedores. Sim, é isso mesmo! Até agora foram apenas cinco jogos com a camisa do Corinthians. E, no total, uma arrecadação bruta de R$ 4,475 milhões com a venda de ingressos. Ou seja, esse dinheiro não entrou todo nos cofres do Timão, até porque duas dessas partidas foram jogadas fora de casa (Itumbiara-GO e Palmeiras, em Presidente Prudente).

A média na bilheteria é muito maior do que o normal. Em cada jogo do Corinthians, Ronaldo faz com que a venda de ingressos contabilize R$ 895 mil. O recorde até agora foi contra o Palmeiras: R$ 1,349 milhão. O pior jogo foi o de ontem, contra a Ponte, que rendeu R$ 506 mil na bilheteria.

Para quem não acha que é o Ronaldo o reflexo dessa arrecadação toda, e sim o peso do Corinthians, dois dados comparativos e elucidativos:

O último jogo antes da volta do atacante foi contra o Marília, no Abreuzão. A venda de ingressos somou R$ 315 mil e uns quebrados. E a única partida sem o Fenômeno desde o retorno, que foi contra o Santo André, gerou um pouco menos: R$ 313 mil.

Imagine quando começar o Brasileirão, com estádios e torcidas maiores? Ou quando afunilar a Copa do Brasil?

No final das contas, Ronaldo vai se pagar só com a venda de ingressos, sem contar o licenciamento de produtos, o patrocínio e outras cocitas más que só um ídolo consegue gerar. É o movimento que faltava para os clubes entenderem que, além de títulos, os grandes ídolos ajudam a entrar mais dinheiro no caixa.

Mais tarde vamos destrinchar o Fenômeno Ronaldo para as finanças dos adversários do Corinthians e até para quem não deveria ganhar tanto com essa história...

Por Erich Beting às 11h59

25/03/2009

Construindo o futuro

Matéria feita pelos repórteres Aurelio Nunes e Marcos Valença, do Pelé.Net, fala sobre a revolta de alguns torcedores do Bahia com a decisão da diretoria de cobrar ingresso de torcedores a partir dos cinco anos de idade para assistir aos jogos do Tricolor.

Entre uma das justificativas que chama a atenção está a bronca de um torcedor dizendo que, com isso, o público jovem ficará alijado dos jogos do Bahia, que assim perderá seu novo torcedor. O caminho é exatamente o oposto a isso.

Primeiro de tudo, não é a ida ao estádio que produzirá o torcedor, mas um conjunto de fatores, que incluem também o prazer de assistir um jogo ao vivo, mas que passa também pelo incentivo do meio social a que a pessoa está inserida.

Mas, voltando à questão do ingresso cobrado aos jovens, de fato a conta ficou mais cara para a família que quer ir ao jogo. Mas onde está o erro disso?

No Bahia, sem dúvida que não.

O clube, com essa medida, tenta aumentar a receita que tem com a bilheteria. Como bem elucidam os repórteres, nessa boa fase durante o Campeonato Baiano e com a volta do time para Salvador, já foram, só com a cobrança de ingressos, R$ 2 milhões neste início de temporada para o caixa do Bahia. O dinheiro cobriu parte do atraso no pagamento de salários.

O erro seria não entender quem é o consumidor do produto futebol. O que o Bahia faz é já colocar na cabeça do seu jovem tricolor a ideia de que ele terá de pagar para ver o time em ação. O jogo de futebol tem de ser entendido como o grande produto de um clube. É o momento máximo de convívio do torcedor com a sua paixão. E isso tem de ter um preço.

O torcedor esteve muito acostumado, ao longo dos tempos, a ter acesso gratuito – ou pelo menos muito facilitado – ao futebol no Brasil. Permissões para entrar no estádio, uma série de “carteiradas” que permitem a alguns privilegiados não pagar pelo ingresso (inclusive jornalistas que não estão a trabalho!), além de vários jeitinhos que tornaram paulatinamente a receita de bilheteria menor para os clubes.

Hoje, Inglaterra e Alemanha assistem a um incremento considerável nas receitas dos clubes por conta do gasto que o torcedor tem nos dias de jogos. Esse tipo de receita tem se tornado uma das principais maneiras de os clubes somarem cada vez mais dinheiro e, assim, conseguirem ter times melhores e conquistar mais vitórias (o Manchester United é o melhor exemplo disso).

Não há problema o Bahia cobrar para o torcedor de 5 a 12 anos ver o time jogar. Pelo contrário, ele deve mesmo pagar pelo ingresso, já que dessa forma poderá ajudar seu time a fazer mais dinheiro e, na ponta final desse processo, contar com melhores jogadores e voltar a ser um dos principais times do país.

A primeira etapa dessa estratégia passa por saber que, desde o útero, o torcedor já é um consumidor dos produtos do clube. O passo seguinte é entender que, para ser cada vez mais consumidor, esse torcedor tem de se sentir prestigiado. Aí nós entramos em outra questão, que fica para uma nova discussão, que é a qualidade dos estádios do país...

Por Erich Beting às 13h04

24/03/2009

Em busca do número 1

No final dos anos 90, a ATP (Associação dos Tenistas Profissionais), encontrava-se num dilema. Após três décadas de grandes nomes do esporte, como John McEnroe, Ivan Lendl, Boris Becker, Andre Agassi e Pete Sampras, entre outras feras, o tênis parecia entrar num período em que os grandes astros estariam distantes das quadras. Ou pelo menos aquele jogador polêmico, que levasse a torcida onde quer que estivesse.

Foi aí que a ATP criou a campanha denominada “New Balls, Please”. No começo do ano 2000, o objetivo era usar o novo milênio como gancho para encontrar a nova geração de atletas, ou as novas bolas que passariam a compor o cenário do tênis mundial.

Os astros da campanha, porém, foram quase todos cadentes. Guga e Leyton Hewitt talvez sejam os dois melhores exemplos. De todos os apontados pela ATP, o único que se sobressaiu e manteve durante anos a superioridade foi Roger Federer. Mesmo assim, a neutralidade do suíço acabou jogando por terra a estratégia de marketing da associação.

Até que a ATP percebeu que, mais importante do que o atleta é o seu evento. Tal qual os Jogos Olímpicos ou a Copa do Mundo de futebol, a entidade que organiza o tênis masculino no mundo decidiu apostar nas promoções dos torneios em vez da figura dos atletas.

E foi assim que o tênis deu a grande virada para se tornar, hoje, uma das modalidades que mais bom uso faz da promoção. Vide as fotos publicadas hoje no mundo inteiro de Andy Murray e Venus Williams duelando em cima de carros nas ruas de Miami, palco do próximo torneio de grande porte do tênis mundial (abaixo, reprodução do site oficial da competição. Clique aqui para ver as fotos publicadas pelo UOL).

Mas o trabalho da entidade na promoção e divulgação dos torneios vai além. No dia anterior, para atrair a atenção da mídia de países no norte da Europa, o finlandês Jarkko Nieminen e a dinamarquesa Caroline Wozniacki foram fotografados surfando numa das praias de Miami (em mais uma reprodução do site oficial do torneio).

 

Resultado: mais estardalhaço, dessa vez numa mídia regionalizada.

E para onde vai o tênis com tanta promoção e oba-oba em cima dos torneios? Por enquanto, a modalidade consegue ganhar espaço na mídia e cavar bons patrocínios mesmo sem ter um grande ídolo, ou vários ídolos, como no passado. Tanto no masculino quanto no feminino, o tênis se tornou muito previsível, com a mesma lista de dois ou três candidatos a títulos.

Mas todo o estardalhaço de marketing dos eventos faz com que as empresas decidam atrelar sua marca à competição. No caso de Miami, foi a Sony Ericsson quem ajudou na disputa entre Murray e Venus e nas ondas de Nieminen e Wozniacki. Mas, a cada campeonato, há um novo patrocinador disposto a sair da mesmice e fazer sua marca ficar guardada na mente das pessoas que estiveram presente à ação ou que souberam da iniciativa pela imprensa.

Se vai dar certo? Pelo menos nos Estados Unidos, que desde Sampras e Agassi não produz um astro de primeira grandeza, o tênis foi o esporte que mais ganhou praticantes nos últimos anos. Para saber mais, clique aqui.

Por Erich Beting às 15h48

Pequeno gesto, grande repercussão

Geralmente o jornalista tem a grande capacidade de ser um azarado. Ainda mais quando faz uma crítica a alguma coisa. Há poucos dias desci a lenha por aqui falando mal da incapacidade dos clubes de futebol de se unirem em torno de alguma ação de cunho social.

Acaba de chegar no meu e-mail um comunicado à imprensa do WWF-Brasil, Organização Não-Governamental que debate e defende as causas de preservação do meio-ambiente. Bom, neste sábado acontece a “Hora do Planeta”. O objetivo é que, entre 20h30 e 21h30, as pessoas não consumam energia elétrica, deixando TVs, luz e qualquer aparelho eletrônico desligados. Com isso, o objetivo é chamar a atenção sobre o impacto da eletricidade no aquecimento global.

O movimento acontece desde 2007. A novidade para este ano (e que envolve o esporte) é a adesão de Flamengo e São Paulo na promoção da “Hora do Planeta”. Os dois clubes vão divulgar a iniciativa a seus torcedores.

O Fla joga pelo Estadual do Rio contra o Resende, no Engenhão. Antes do jogo, o telão do estádio vai exibir o vídeo institucional da “Hora do Planeta”. Da mesma forma, o site rubro-negro vai mostrar o vídeo com o mesmo objetivo de incentivar o torcedor a não consumir energia entre 20h30 e 21h30.

Em São Paulo, o Tricolor vai um pouco mais além. Durante o clássico contra o Palmeiras, divulgará no placar eletrônico do Morumbi a campanha. Depois, vai desligar as luzes do estádio na “Hora do Planeta”. E, também, vai tirar o site oficial do ar nesse período.

São pequenos gestos, mas que podem ter grande repercussão. Primeiro porque envolvem dois times de massa como Flamengo e São Paulo, donos da primeira e terceira maiores torcidas do país, respectivamente. Depois, porque a mídia sem dúvida dará espaço à ação.

É uma boa ação para mudar a imagem atrasada dos clubes de futebol no Brasil. E, felizmente, para calar a minha boca.

Por Erich Beting às 11h16

Freada Brusca

No próximo final de semana tem início em São Paulo mais uma temporada da Stock Car. A competição de automobilismo mais badalada do país em 2008 começa 2009 abalada com os reflexos da freada de grandes investimentos em marketing no Brasil.

Se é marola ou tsunami, não dá para dizer, mas o fato é que a Stock talvez seja o mais palpável exemplo de que a vida para o esporte, em 2009, não está sendo e nem será tão bela quanto foi no ano passado.

No frigir dos ovos o grid com 32 carros foi garantido. Mas é raro encontrar os que conseguiram vender todas as cotas de patrocínio. Ontem, em São Paulo, Ricardo Zonta apresentou sua equipe e patrocinadores (leia mais na Máquina do Esporte). Disse que ainda falta negociar 40% dos espaços publicitários no carro. Na prática, isso significa que ele começa o ano com quase metade da grana que precisaria para pelo menos “zerar” o caixa em dezembro.

Situação que é semelhante a quase todos os pilotos nesta temporada. Pilotos, aliás, que também sentirão a fuga dos patrocinadores nos prêmios que têm a receber. No ano passado, foram R$ 6 milhões distribuídos aos atletas, incluida nessa conta a midiática "Corrida do Milhão". Para 2009, já estão garantidos prêmios na casa dos R$ 4,5 milhões. A Sky já disse que não patrocinará a prova milionária, que corre o risco de não acontecer.

Mas o maior reflexo, no caso da Stock, estará na área vip. Famosa pela quantidade de empresas envolvidas (eram mais de 80 no ano passado), a categoria verá uma redução acentuada no número de camarotes corporativos e ações de relacionamento nos dias de prova. Isso não significa que todas esses patrocinadores abandonaram o barco, mas reduziram drasticamente a verba destinada à Stock. O caso mais exemplar é o da Medley, que era patrocinadora oficial e tinha mais de uma equipe correndo. A fabricante de medicamentos deixou o apoio à categoria e terá apenas uma equipe competindo em 2009.

Curiosamente, no final do ano passado os gestores da Stock celebravam a mudança de data de quatro provas (do sábado para domingo), dizendo que ela havia sido um pedido dos patrocinadores para aumentar a oportunidade de relacionamento com os convidados.

No fim, essa história mostrou o seu lado perverso. Com a alteração, a TV Globo não exibirá essas quatro provas ao vivo na íntegra. E isso tem trazido um pouco mais de dor de cabeça para quem está em busca de patrocínio para os carros.

Cada vez fica mais claro que mídia e esporte devem caminhar de braços muito bem dados. E que, em 2009, as grandes categorias do automobilismo sofrerão um baque que acabará com os anos dourados que existiram ultimamente.

Por Erich Beting às 08h18

23/03/2009

O duelo recomeça

Globo e Record começam a travar um novo duelo. Depois do furor que foi para o mercado da dramaturgia o investimento da emissora paulista na aquisição de profissionais da rival para as telenovelas, agora chegou a vez de o esporte da Globo sofrer com o avanço da concorrente.

Nesta segunda-feira a Record anunciou as contratações de Dario Leite e Marcos Silveira. Os dois não são pessoas do “vídeo”, mas trabalham na coordenação de eventos esportivos da Globo. Dario, que ocupará a chefia de redação da Record, foi quem comandou a delegação global nos Jogos de Pequim. Silveira, que será o chefe de eventos esportivos, era quem comandava as transmissões internacionais do futebol.

Ambos chegam para a equipe de Sergio Hilinsky, recém-pescado do Globo Esporte para ser o novo coordenador de esportes da TV Record. No passado já havia sido feita sondagem a Cléber Machado, o número 2 da narração global.

Resta saber, porém, se a investida da Record no esporte vai além dos Jogos Olímpicos.

Por Erich Beting às 17h20

Ativação de patrocínio

Nos últimos dias discutiu-se muito por aqui a questão do valor do patrocínio e, também, de como tirar o melhor proveito de uma estratégia de investimento num atleta, clube, federação, etc. Eis que hoje surgiu uma notícia que mostra como, com boas ideias, é capaz de você fazer barulho em cima de um patrocínio.

Ontem e hoje o Banco do Brasil promoveu a disputa de dois jogos amistosos entre Brasil e Argentina no futsal. As partidas tinham como valor apenas reforçar a ligação do banco com o time nacional, que é seu patrocinado. Na carona disso, o banco aproveitou e ativou dois patrocínios com uma ação só.

Na terça-feira, o ala Falcão, maior referência mundial quando o assunto é futsal, estará na quadra da escola de samba Mocidade Alegre. Entre embaixadinhas e batuques, o jogador atrairá a atenção da mídia e reforçará a ligação do banco não apenas com o futsal, mas também com a escola campeã do Carnaval paulistano em 2009.

Em comum, tanto a seleção brasileira quanto a Mocidade são patrocinadas pelo banco. Falcão ainda reforçará o projeto social da escola de samba, que atende mil pessoas da comunidade carente. E o BB ganhará os louros de juntar todas essas coisas.

Por Erich Beting às 16h39

A força do ídolo

A presença de Ronaldo na disputa do Campeonato Brasileiro já começa a render frutos para o principal torneio do país. Na semana passada, o laboratório farmacêutico Teuto fechou um acordo para comprar uma das placas de publicidade estática ao redor do campo. Os valores não foram divulgados, mas mais importante do que isso é a explicação dada pela empresa para decidir estampar sua marca em 190 dos 380 jogos do Brasileirão:

“O primeiro turno do campeonato terá com certeza a presença do Ronaldo, e isso vai dar uma visibilidade muito grande para nós. Além disso, as imagens para divulgar os jogos do segundo turno quase sempre têm como base os jogos do primeiro", explicou Ítalo Melo, do marketing trade da farmacêutica (leia a matéria completa na Máquina do Esporte).

Essa é a prova de que Ronaldo já não gera dinheiro apenas para o Corinthians. Afinal, a placa estática é uma propriedade pela qual todos os clubes recebem dinheiro. Imagine se Kaká, Ronaldinho, Pato, Adriano, Robinho e tantos outros craques do futebol brasileiro estivessem em atuação no país? Com Ronaldo, Fred e Keirrisson, esse Brasileirão já promote atrair público e mídia. É aquela velha história de que dinheiro gera mais dinheiro.

No caso, ídolo gera mais torcida. E, consequentemente, mais dinheiro para o futebol.

Por Erich Beting às 09h47

Estado de Choque

A pancadaria entre torcedores e policiais no estádio do Pacaembu, após Corinthians 1x0 Santos, é daquelas que dá pena do ser humano. A que ponto chega a covardia, o abuso de autoridade e a falta de respeito? Em todos os lados?

Mais uma vez um clássico entre grandes torcidas no país termina em briga. De novo, a confusão não envolve as torcidas dos dois times, mas torcedores de uma das equipes e os policiais militares.

Mas por que será que isso acontece?

Sem dúvida que um dos principais problemas está no tratamento que é dado ao torcedor quando ele vai assistir a um jogo de futebol. O que justifica o comportamento brutal dos policiais que em tese estão lá para dar amparo ao torcedor?

Talvez a melhor explicação esteja no tipo de policial que é responsável pela “segurança” nos estádios de futebol do país. Por definições que não se sabe quando aconteceram, os jogos de futebol contam com a “proteção” do Batalhão de Choque das polícias militares municipais.

Bom, na essência, o batalhão existe para “agir em ações de Controle de Distúrbios Civis”. Ou seja: o policial destacado para cuidar do torcedor no estádio é aquele que tem, em seu treinamento diário, que estar preparado para as piores situações de descontrole social.

Evidentemente, é esse policial quem não está preparado para tratar o torcedor de futebol como uma pessoa, apenas como um desordeiro. E, a partir desse princípio, sempre o que se vê é o torcedor “comum” receber uma série de pancadas em nome da “ordem”.

Na Inglaterra, berço da civilização do torcedor baderneiro, era também o batalhão de choque o responsável, lá no passado, em cuidar da segurança nos estádios de futebol. Até que, no início dos anos 90, os ingleses decidiram dar uma atenção específica ao fã que ia aos estádios.

E foi assim que se criou uma polícia especial, preparada para lidar com as especificidades do torcedor que frequenta o estádio (geralmente reunidos em grupos, mas sem armas específicas e com uma dose de emoção para agir em “defesa” do clube). Além disso, a polícia inglesa se preparou melhor para evitar que o torcedor já condenado por ter provocado distúrbios em outros jogos tivesse o direito de entrar numa partida de futebol pós-condenação.

Com o tempo, o “hooligan” perdeu seu espaço dentro dos estádios britânicos. Não quer dizer que eles não existam mais, porém a sua força de atuação é cada vez menor.

Sem treinamento adequado e fiscalização eficiente, é muito difícil conseguir tirar os estádios de futebol do país do estado de choque permanente em que ele se encontra.

Por Erich Beting às 00h18

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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