Blog do Erich Beting

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24/07/2009

O show-man

Usain Bolt é muito mais do que um atleta fora de série. Nesta tarde, as câmeras de TV mostraram mais uma vitória do jamaicano numa prova de 100 m rasos, desta vez durante o GP de Londres. Mas o que chamou a atenção não foi que de novo ele teve uma larga vantagem sobre os rivais na linha de chegada.

Nos segundos que antecederam a prova, Bolt foi focalizado de tudo quanto é jeito pelas câmeras de TV. E, invariavelmente, ele fazia careta, brincava, gesticulava, pedia a presença do público, etc.

A espontaneidade com que ele desfila nas pistas, antes, durante e após as provas é digna de nota. São poucos os atletas que conseguem ser um espetáculo tanto na disputa esportiva quanto fora dela.

O jamaicano é o candidato a ser o "Michael Phelps" das pistas na próxima edição dos Jogos Olímpicos. Muito holofote da mídia, promessas mil dos patrocinadores e desempenho acima da média na disputa pelo novo recorde mundial.

Um espetáculo dentro das pistas e fora delas um cara para lá de carismático. São os dois melhores ingredientes para o marketing explorar...

Por Erich Beting às 18h39

O calendário invertido e a receita perdida no futebol

Neste exato momento comento a Amsterdan Cup pelo Bandsports. E a discussão é inevitável. Por que nenhum time brasileiro disputa esses torneios de pré-temporada da Europa?

A CBF, que é quem organiza o futebol no país, teima em manter o torneio por pontos corridos sendo disputado de maio a dezembro. Alega interesses comerciais, uma vez que o mercado publicitário brasileiro debate suas verbas pensando o ano de janeiro a dezembro.

O argumento, porém, é falho. Os clubes, como mostraram muito bem este ano Corinthians e Flamengo, entre outros, conseguem o patrocínio independentemente da época do ano. As empresas que investem verbas altas, porém, são geralmente multinacionais, que discutem o planejamento conforme o calendário fiscal do exterior, no mês de junho.

No final das contas, a história da verba publicitária funciona mesmo para quem é o detentor do direito de transmissão do evento.

Mas além de gerar um baque considerável no Campeonato Brasileiro com a saída de jogadores para a Europa, a não-adequação do Brasil ao calendário europeu só prejudica a geração de novas receitas para o futebol brasileiro.

O torneio em Amsterdã deu, a cada clube participante, 410 mil euros. Quase R$ 1 milhão. E olha que esse é um dos torneios que menos remunerou os clubes em disputa! É uma grana de curto prazo que os clubes não conseguem ganhar. Isso sem contar o prejuízo no longo prazo que os clubes brasileiros têm, ao não participar de competições internacionais e, assim, não conseguir realizar estratégias para buscar outros mercados além do nacional.

Adequar o calendário do Brasil ao praticado na Europa e no restante do mundo não é uma questão meramente burocrática. Serve para melhorar o nível do Campeonato Brasileiro, já que os atletas dificilmente deixarão o torneio no decorrer da competição. E, ainda, amplia a possibilidade de geração de receitas para os clubes ao levá-los para disputar torneios no exterior.

É só ter vontade e entender a importância do negócio para o futuro do futebol no país. Coisa que, enquanto não mudar a mentalidade do comando de clubes e federações, será difícil de ver.

Por Erich Beting às 15h47

23/07/2009

Pelé tenta, enfim, virar uma grife

Não existe marca mais valiosa no esporte do que Pelé. E, hoje, o jornal "The Wall Street Journal" publicou uma matéria revelando que o Rei do Futebol assinou um contrato para o licenciamento de sua marca com a empresa suíça de material esportivo Nomis.

O que surpreende nesse acordo é que Pelé ainda não conseguiu fazer com que exista uma linha de produtos com a sua marca, algo que todo atleta dos dias de hoje pensa e consegue fazer, sendo os casos de Michael Jordan e Tiger Woods os mais notáveis.

Ok, Pelé foi o percursor do esporte como negócio, sendo um fenômeno de mídia que até hoje não existiu igual. Mas, por isso mesmo, era mais do que possível que Pelé já estivesse muito bem no mercado de licenciamentos. O máximo de produto que temos com a marca dele são o Pelezinho e o Café Pelé!!!!

Nos últimos anos, para piorar, a imagem de Pelé foi cedida para uma série de produtos e propagandas que não são condizentes com o peso que ele tem como formador de opinião. Antes que caiam de pau nas escorregadas dele fora das quatro linhas, um breve relato do potencial e da força que a marca Pelé tem.

Em 2003, ainda trabalhando pelo "Lance!", fui entrevistá-lo num evento da MasterCard na Alemanha. Fazia 5°C e garoava. Pelé participava de uma vídeoconferência para jornalistas de países da América Latina num estúdio em frente ao Portão de Bradenburgo, um dos símbolos da cidade de Berlim. Dava para ver, do lado de fora, que ele estava lá dentro. Saímos do estúdio por volta das 21h, cerca de duas horas depois do início dessa teleconferência. Na porta, uma fila de cerca de dez pessoas (algo mais alemão impossível), com adultos, idosos e crianças, gente de todas as faixas etárias possíveis. Todos com o que podia ter na hora para pegar um autógrafo ou ao menos poder ver Pelé. E tudo isso ainda tomando chuva a 5°C!

É incalculável a força de marca que Pelé tem. Só dá para saber que ela não pode ser associada a produtos de baixo valor agregado. Na última Copa, Pelé foi o garoto-propaganda da Puma. Agora, terá o desafio de criar sua própria grife para arrebentar em vendas na África do Sul.

Só que, para variar, a história começa meio torta, com a associação do melhor da história do futebol a uma marca desconhecida mundialmente. A justificativa do staff de Pelé é exatamente essa, de que a marca verá no ex-jogador a chance de fazer a sua vida.

É esperar para ver. Mas acho que grife Pelé mereceria uma marca de peso ao seu lado...

Por Erich Beting às 20h34

O patrocínio bem elaborado

Aos poucos a indústria do esporte no Brasil começa a se aperfeiçoar. O que antes era um mercado formado por decisões tomadas por empresários muito mais para ajudar um atleta ou uma modalidade começa a se tornar estratégico.

Acabei de receber um release sobre um patrocínio da Duracell. A marca de pilhas da Procter & Gamble vai patrocinar uma nadadora brasileira que tentará atravessar o famoso Canal da Mancha a nado. Luciana Mesquita receberá uma graninha para poder cruzar o mar que divide a França da Inglaterra.

Bom para ela e para o mercado, que começa a ter cada vez mais exemplos de patrocínios que são lógicos para a empresa e para quem recebe o apoio. Afinal, o produto da Duracell é a pilha, um produto que gera energia e que precisa ser resistente. Os mesmos atributos são necessários para a atleta completar a travessia do Canal da Mancha.

E, depois de cumprida a tarefa, o ideal é usá-la para ações interna de marketing, contando a experiência de um desafio desses para estimular equipes de venda e afins. Com isso, o mais valioso para a empresa não é a exposição em mídia que a nadadora pode dar, mas sim essa função de motivação interna que ela também pode desempenhar.

Com projetos bem elaborados, a indústria como um todo se fortalece. O que precisa, primeiro de tudo, é conhecer de que forma o esporte pode ajudar a empresa. E vice-versa. Aos poucos, isso fica cada vez mais claro.

Por Erich Beting às 17h30

O soccer decolará nos EUA?

Abordei outro dia por aqui o fenômeno David Beckham no futebol dos Estados Unidos. Hoje, o inglês está mais para vilão do que para herói. Agora, porém, os entusiastas do soccer na América discutem se, finalmente, o futebol jogado com os pés vai decolar pelas bandas de lá.

O entusiasmo parte da realização do "World Football Challenge", um torneio de pré-temporada reunindo Chelsea, Milan, Internazionale e Club America (México). O evento começou na terça-feira. A partida de abertura gerou uma grande empolgação nos organizadores. Nada menos que 81.224 torcedores foram ao Rose Bowl assistir à vitória do Chelsea sobre a Inter. Na próxima sexta, o confronto Chelsea x Milan, em Baltimore, já vendeu os 71 mil ingressos à disposição.

Os números podem empolgar, mas devem ser vistos com cautela. Torcida para assistir a times de primeira grandeza é fácil de conseguir. Ainda mais quando se fala em Estados Unidos e os confrontos envolvem times italianos e um mexicano, países com inúmeros imigrantes morando nos EUA.

Para o futebol nos EUA pegar, apenas Beckham não basta. Os melhores precisam estar em atividade constante no país. Do contrário, a casa cheia só existirá nas partidas que envolvem times de primeira grandeza. Dinheiro e investidores, para isso, não faltam. Mesmo com crise.

Por Erich Beting às 23h39

22/07/2009

Barretos fecha patrocínio de R$ 1 milhão

A festa de peão de Barretos anunciou ontem um patrocínio de R$ 1 milhão com a Fugini Alimentos. O acordo permitirá à empresa fazer o lançamento de um novo produto, focado no tipo de público presente ao evento de rodeio. Mas o mais curioso é que a Fugini vai fazer suas ações não no rodeio, mas sim na "Queima do Alho", evento gastronômico paralelo que acontece nos dez dias de duração do festival no interior paulista.

Barretos talvez seja o evento que mais sintetize o modelo americano de gerenciar o esporte. Não entremos, aqui, na discussão se rodeio é esporte ou não. Pensemos no gerenciamento de produto para entender o que representa um patrocínio como esse fechado por Barretos.

O foco da festa do peão não é a competição de touros e montarias, mas sim o entretenimento do público que está presente ao evento. A disputa, em si, é o que menos interessa para quem vai ao evento. Porque a arena de Barretos tem diversas outras atrações, como festival gastronômico, show sertanejo, etc.

É o modelo americano de fazer, do evento esportivo, um show. No final das contas, o que menos importa é o jogo. O foco está no torcedor que vai à arena.

Ontem, também, foi divulgado um ranking dos eventos esportivos mais valiosos do mundo. A Copa do Mundo de futebol ficou em quinto lugar no ranking. Os quatro primeiros foram ligas esportivas dos Estados Unidos.

Para trabalhar com esporte, está cada vez mais claro, é preciso levar o foco para o torcedor. É ele quem pagará a conta de um grande evento.

Por Erich Beting às 15h36

21/07/2009

Alguma coisa está fora da ordem

Semana passada, em palestra aos colegas presidentes de clubes, Luiz Gonzaga Belluzzo disse que seria interessante o futebol pensar na adoção de um teto salarial para limitar os gastos e reduzir o risco de crise financeira.

Hoje, ele acaba de anunciar a contratação de Muricy Ramalho para técnico do Palmeiras. Se fosse há quase um mês, a notícia seria compreensível. Mas, dadas as circunstâncias, ela revela apenas que algo foge do controle entre o discurso e a prática.

Jorginho, que amanhã se despede do cargo de treinador do Palmeiras, tinha um salário cerca de 50 vezes menor que o de Vanderlei Luxemburgo. Sim, você não leu errado. Jorginho ganhava 50 vezes menos que Luxa. E vinha tendo um desempenho excepcional com o time, alçando-o à liderança do Campeonato Brasileiro, ao lado do Galo.

Muricy provavelmente não receberá o mesmo que Luxemburgo. Mas, sem dúvida, não terá o mesmo honorário simples de seu antecessor.

O bom gestor tem de olhar qual o melhor custo-benefício para a entidade que dirige. Como economista respeitadíssimo que é, Belluzzo sabe que não pode gastar desenfreadamente, daí o pedido de adoção do teto salarial. Como presidente do Palmeiras, porém, o lado apaixonado fala mais alto. O temor de um técnico menos experiente para um clássico contra o Corinthians pode ter pesado. Assim como o histórico de Muricy pode ter contado a favor para o restante do campeonato.

Jorginho poderia se tornar uma solução caseira e muito mais barata. Mesmo com um aumento, provavelmente ele ganharia pouco mais de 10% do salário de Luxemburgo e cerca de até 8 vezes menos do que pode vir a ganhar Muricy.

Alguma coisa está, realmente, fora da ordem. E isso não é, sem dúvida, o salário de Jorginho. O futebol criou, ao longo dos últimos anos, valores astronômicos para pagamento de salários. Um treinador em começo de carreira que dirige um time da Série A de Campeonato Brasileiro não ganha, hoje, menos de 50 mil reais por mês. As folhas salariais dos clubes chegam, facilmente, a R$ 5 milhões, até R$ 10 milhões, por mês. Para cerca de 30 a 50 funcionários!

É um despropósito.

Fala-se em teto salarial. O problema é que o salário no futebol, hoje, está num nível tão estratosférico que primeiro ele precisa voltar à realidade para, então, começarmos a criar parâmetros de mensuração. Belluzzo poderia ser o percursor dessa moda. Mas o coração agiu à frente da razão.

O resultado, dentro de campo, pode justificar o investimento. Mas o certo é que não se pode pensar mais o futebol no nível em que ele está. Ou fecha-se a torneira ou prepara-se a porta, porque elas precisarão ser fechadas com a falta de dinheiro.

Por Erich Beting às 22h59

Adriano "aposenta" a 9

Como jogar no lixo uma ação de marketing?

Um bom exemplo foi dado pelo Flamengo no último final de semana. Adriano jogou contra o Botafogo (e marcou o seu!) usando a camisa 10 rubro-negra. Até aí, nenhum grande problema. Mas no início do mês o clube mostrou, com toda a pompa, o uniforme novo tendo o Imperador como garoto-propaganda. E, na ocasião, ele vestiu a camisa com o número 9, que havia sido escolhido pela torcida para ser o número dele.

"Claro que não é bom fazer uma campanha, usar nossa credibilidade e depois desfazer. Mas recebemos uma encomenda para a ação, e depois uma encomenda para mudar. Não imagino tanto impacto porque a mudança foi feita rapidamente", disse entre outras coisas Ricardo Hinrichsen, diretor de marketing do Flamengo, em entrevista à Máquina do Esporte.

O departamento de marketing foi atropelado pela vontade pessoal do jogador, que por sua vez teve o respaldo da diretoria de futebol. Toda a estrategia de marketing terá de ser reavaliada e repensada. Por um mero capricho de Adriano.

E, nessas horas, como fica o marketing? Sempre defendo aqui que o marketing não pode atropelar o esporte, mas o contrário, algumas vezes, também é verdadeiro.

Por Erich Beting às 18h22

Futebol europeu adota a estratégia da NBA

Quem você contrataria para o seu time? Essa pergunta permeia a cabeça de todo torcedor. E, quase sempre, as respostas voltam-se para todos aqueles craques que todo mundo sonha em ter no seu time (e que só o Real Madrid contrata!). Mas, na mesma Espanha que acaba de contratar Kaká e Cristiano Ronaldo, o Espanyol, rival local do Barcelona, anunciou a contratação de um jogador que pode fazer história.

Nakamura! Sim, esse mesmo. É aquele meia japonês, razoavelmente bom de bola, mas que não decide jogo como um Kaká, um Ronaldo, um Cristiano...

Mesmo sem ser um craque de bola, Nakamura se tornou a grande esperança dos dirigentes do Espanyol. E não é dentro de campo, claro! O jogador é visto como uma solução para o Espanyol ganhar o mercado japonês, podendo expandir os seus tentáculos para a terra do sol nascente. Está sendo, mal comparado, ao Beckham.

A história não é nada inédita. O Palmeiras tentou algo expansionista na época da Parmalat em 1996 com a contratação de Marco Osio, um meia abaixo da linha do aceitável, mas que gerou certa repercussão na Itália, seu país de origem, atendendo a alguns anseios da patrocinadora. 

A estratégia do Espanyol e de diversos outros clubes europeus tem como origem a expansão da NBA pós-Michael Jordan. Sem um grande astro mundial, a liga de basquete foi buscar atletas na Argentina, no Brasil, na China, na Alemanha... O objetivo foi tornar a NBA mundialmente conhecida mesmo sem o fenômeno de Jordan. Mais do que isso, foi também a chave para a liga expandir os seus tentáculos por diversos países com alto potencial de consumo.

No ano que vem, devemos ter, finalmente, um jogo da NBA no Brasil. A promessa é antiga, mas parece que só agora o país alcançou, de fato, o status de "mercado consumidor em potencial" para os americanos.

No ano que vem, possivelmente o Espanyol estará em campo no Japão. Só a apresentação de Nakamura levou cem jornalistas japoneses a Barcelona para fazer a cobertura do evento! A febre de consumo do Japão pelo atleta japonês é absurda, e parece que o Espanyol saberá aproveitá-la. Nakamura não precisa nem ser titular. Basta entrar de vez em quando e, essencialmente, estar presente na pré-temporada do ano que vem lá no Oriente.

Mas a pergunta que fica é outra.

E você, aceitaria ver um cara meio ruim de bola no seu time só para conseguir aumentar as receitas e, assim, trazer bons jogadores para o elenco? O Brasil estaria pronto para aceitar essa interferência direta do negócio sobre o esporte?

Por Erich Beting às 08h13

20/07/2009

Burger King cria patrocínio interno da camisa

Essa é de cair o queixo. O Getafe, que disputa a primeira divisão da Espanha, anunciou o patrocínio com a rede de lanchonetes Burger King. Até aí, nada demais. Só que, na hora que mostraram como funcionará o patrocínio na camisa...

Além do tradicional patrocínio no peito do uniforme, o Burger King decidiu patrocinar a parte interna da camisa do clube espanhol. Sim, é isso mesmo! Sabe aquela história de que o jogador levanta a camisa na hora de celebrar o gol e esquece de mostrar o patrocínio na hora mais importante? Pois é. Agora, provavelmente o jogador terá de levantar a camisa...

Veja abaixo a foto da apresentação do uniforme e, depois, a de divulgação do Burger King da Espanha. Comentário do chefão da rede no país europeu: "Os valores do Burger King de alegria, fidelidade e autenticidade casam com os do Getafe". Bota autenticidade ao criar essa camisa.

E que bela sacada de marketing. Basta a torcida aderir que o estádio inteiro passará a ter a cara do Burger King. Em tempo, agradecimento ao Fabio pelo envio da informação!


A apresentação formal do novo uniforme...

... E a camisa com o patrocínio "interno"

Por Erich Beting às 16h28

Quem cuida do futebol feminino?

Outro dia ouvi uma interessante discussão na rádio Bandeirantes sobre o novo patrocínio do Santos. A Copagaz se tornou uma parceira do clube. Vai fornecer gás gratuitamente para o clube, o que representará, segundo a diretoria de marketing santista, uma economia de cerca de R$ 150 mil. Em contrapartida, a empresa vai patrocinar "As Alvinegras". Não, no caso aqui não nos referimos ao time feminino de futebol do Santos, talvez hoje o melhor do país. Esse é chamado de "Sereias da Vila" e ganha quase tudo o que disputa.

E foi exatamente essa a indagação da repórter Camila Malinovski, que faz a cobertura diária do time da Vila Belmiro para a rádio: "Por que não patrocinar o futebol feminino"?

Em 2011 essa voltará a ser uma baita discussão na mídia e motivo para mais choradeira de todos os lados. O futebol feminino do Brasil fará ótimo papel na Copa do Mundo da Alemanha (provavelmente deve ser vice-campeã, caindo para as anfitriãs) e mais uma vez clamará pelo patrocínio que não existe, pela inexistência de uma liga organizada, pela cobertura da TV aberta, etc.

É interessante ver como as meninas têm crédito com a mídia, o que poderia significar uma boa fonte de receita de patrocínio. Mas isso não consegue se traduzir em nada além de choro após um bom resultado que ganha as manchetes dos jornais e escancara mais um pouco as dificuldades que o futebol feminino tem.

Só que de nada adianta chorar se não houver trabalho para mudar a situação das meninas no país que se diz ser "do futebol". E qual a saída para as mulheres?

É preciso olhar como o futebol feminino está estruturado na Alemanha para tentar compreender como podemos criar, de fato, um futebol para as mulheres no Brasil. Esqueçamos os Estados Unidos, que enxergam o futebol como um esporte escolar e para as mulheres. Vamos para os alemães, que têm o futebol dos homens enraizado em sua cultura e, mesmo assim, produzem uma ótima seleção e bons campeonatos de futebol feminino.

Lá, para as mulheres existirem, foi preciso dar um tratamento diferenciado para a gestão do futebol feminino. Foi constituída uma Confederação Alemã de Futebol Feminino, que cuida exclusivamente dos interesses da modalidade. E o futebol para os homens continua a cargo da DFB, o equivalente à CBF daqui.

No Brasil, o problema maior é esse. O futebol das mulheres continuam sob o guarda-chuva da CBF, que por sua vez cuida até da Série D do Campeonato Brasileiro para homens, sem contar as competições envolvendo as rentáveis categorias de base e seus futuros craques negociados a peso de ouro.

Enquanto não for criada a Confederação Brasileira de Futebol Feminino, as mulheres seguirão relegadas a um décimo plano na escala de prioridades da CBF. Ainda mais com uma Copa do Mundo do futebol masculino para ser jogada daqui a cinco anos. É hora de aproveitar a excelente geração que existe no país para forçar a criação de um órgão que cuide exclusivamente dos interesses do futebol feminino. Do contrário, seguiremos com a mesma história. Um ano é choradeira pós-Copa do Mundo. No outro, depois das Olimpíadas. E nos três anos seguintes, abandono completo. Até a próxima Copa do Mundo...

Por Erich Beting às 09h07

19/07/2009

Beckham, o novo vilão dos EUA

A torcida americana já escolheu o seu vilão. E, surpresa ou não, o nome dele é David Beckham. O superastro do Los Angeles Galaxy virou uma espécie de responsável, agora, por mais uma tentativa furada de fazer com que o soccer emplaque na cultura americana de esportes.

Matéria de hoje na "Folha de São Paulo" e uma reportagem de cinco minutos na CNN discutem exatamente o estrago que Beckham causou no futebol dos EUA. Contratado, há dois anos, como o salvador da pátria de chuteiras americana, Beckham viu o conto de fadas ruir quando quis jogar no Milan e, mais do que isso, quis voltar a atuar na Europa, deixando de lados colegas de profissão e o sonho de fazer o futebol nos EUA.

Beckham está de volta ao LA Galaxy. Nesta semana, ele disputa uma série de amistosos contra Milan e Chelsea, devidamente patrocinados pela Adidas e sua febre de se tornar uma marca aceita e consumida pelo público americano. Mas a pergunta que não quer calar é, tanto aqui quanto nos EUA, a mesma: como torcida, imprensa e jogadores vão reagir à volta de contato com aquele que era considerado o novo messias do futebol na terra do Tio Sam?

O inglês disse que está tudo na mesma. Só que o público, que chegou a 70 mil pessoas na sua estreia, em 2007, hoje já está em 20 e poucos mil para as partidas com o astro. A audiência na TV não decola. E, onde o calo aperta, que é na presença do patrocinador, a situação pouco mudou, ainda mais agora com o país em crise.

O marketing que envolveu a contratação de Beckham escorregou em três fatores. O primeiro é um problema universal. Beckham, dentro de campo, não foi o craque que se tinha certeza que seria fora dele. Sim, ele não é genial quanto um Kaká ou um Cristiano Ronaldo, mas está longe de ser um jogador mediano. Por isso mesmo o fato de não levar o Galaxy ao título fez a desilusão tomar conta de todos. Foi o risco de Ronaldo no Corinthians, que a cada gol que passa mostra que não se concretizou.

Outro problema foi a volta de Beckham à Europa. Pegou mal não só ele voltar para atuar pelo Milan no ano passado, mas principalmente fazer questão de tentar encontrar uma vaga em qualquer time europeu para não ter de regressar a Los Angeles. O torcedor e a crítica ficaram contra. E isso é sentido na animosidade com que ele passou a ser recebido nos EUA.

Por fim, o terceiro fator está, para mim, em algo que está longe do alcance de Beckham assim como já esteve fora da alçada de Pelé no final dos anos 70. O formato do futebol não se encaixa com o perfil americano de cultivar o esporte e, mais do que isso, o perfil das empresas de investirem no esporte.

Para o americano, a disputa esportiva precisa, necessariamente, ter um vencedor. Só o soccer permite que um jogo termine empatado! Além disso, o esporte nos EUA é formatado e pensado para a televisão. O basquete, o futebol americano, o beisebol e o hóquei, que são as maiores ligas, possuem o tempo da TV, tem a partida interrompida para o cara de classe média ir até o banheiro e buscar a cerveja. Nessa hora entra o intervalo comercial, que garante à emissora de TV um alto valor de receita que, por sua vez, é reinvestido na compra dos direitos. Num jogo de soccer, o americano corre o risco de ter de sair para ir ao banheiro e, na volta, o gol decisivo da partida ter acontecido.

Simplesmente o futebol não entra na cabeça americanizada de curtir o esporte. E nem o marketing de Beckham foi capaz de suprir essa lacuna cultural.

Beckham é o novo vilão dos EUA. E, sinceramente, se nem Pelé deu conta do futebol por lá, quem conseguirá? Está provado que, na terra do marketing esportivo, só o marketing não se sustenta!

Por Erich Beting às 19h26

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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