Blog do Erich Beting

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01/08/2009

Ouros Made in Brazil

Cesar Cielo voltou ao lugar mais alto do pódio. Mais uma medalha que a CBDA vai aproveitar para decantar a evolução da natação do país. Mais uma medalha que, na verdade, é Made in Usa. Ou, já que é impossível tirar o mérito de "Cesão", é um ouro Made in Brazil. Assim mesmo, com "z", para não esconder a origem americana.

Assim como a prata de Felipe França nos 50m peito é uma medalha francesa, local do treinamento do nadador brasileiro.

A CBDA vai bater na tecla de que a natação brasileira tem evoluído, tamanho os resultados alcançados. Só que todo esse bom desempenho do Brasil, é necessário dizer, tem muito mais a cara dos países de ponta da natação mundial, como Estados Unidos e França.

É na hora da vitória que se precisa deixar o oba-oba de lado e pensar num projeto para, de fato, construir uma estrutura esportiva sólida para o país.

Por Erich Beting às 22h22

O torcedor e o clube - parte I

Bom, conforme prometido, segue o início da análise do relacionamento entre clube e torcedor para, enfim, chegarmos naquela discussão mais profunda sobre o sócio-torcedor no Brasil.

A gente se acostumou a ver, ao longo dos anos, a velha discussão do "time de maior torcida" do Brasil. Flamengo e Corinthians lideram esse quesito, isso não há dúvidas. Só que, a cada dia que passa, a questão é outra.

Qual a torcida que é a maior consumidora do Brasil?

O futebol, do jeito que está hoje, precisa encontrar as mais diferentes fontes para financiar o clube. E isso passa, necessariamente, por um maior entendimento de quem é o torcedor de um time de futebol. Não adianta mais bater no peito e dizer, por exemplo, que o Flamengo é o dono da maior torcida do país, se essa torcida não é a que mais consome produtos do clube.

Uma forma de se entender isso é analisar a média de público do Campeonato Brasileiro x a média de arrecadação dos clubes. O que é mais importante? Levar mais torcida aos jogos ou ganhar mais dinheiro com o torcedor presente aos estádios?

Nesse sentido, é emblemático o caso do Palmeiras neste Brasileirão. Segundo os dados da CBF até a última rodada do Brasileirão, o Palmeiras é apenas o 12º no ranking de média de público, com 13.732 torcedores/jogo. A média de renda, porém, tem um salto significativo. O clube é o 4º colocado, com cerca de R$ 402 mil por partida na bilheteria.

O futebol no Brasil ainda está longe de aprender a fazer essa conta na hora de se vangloriar sobre a sua torcida. Flamengo e Corinthians, estatisticamente, são os donos das maiores torcidas do país. Mas quem são esses torcedores? Onde eles estão? Quanto eles consomem por mês? Quanta receita ele gera para o clube ao final de um ano?

Essas perguntas seriam fundamentais para o futebol responder. Na Inglaterra, em meados dos anos 90, o Manchester United decidiu começar a fazer um grande levantamento para conhecer quem é o seu torcedor. Hoje, passados 15 anos do início desse plano, o Manchester conhece os cerca de 6 milhões de consumidores que tem. E, mais do que isso, sabe exatamente o que ele gosta de consumir, como gosta de consumir, quais produtos do clube ele tem, etc.

Como nenhuma outra empresa, o futebol permite que se conheça todos os hábitos de consumo do torcedor. Apaixonado, o torcedor não só consome o produto do clube como diz o que gosta de fazer, quando gosta de consumir, quanto pode gastar, etc.

No Brasil, ainda não existe um estudo detalhado de quem são os torcedores de um clube. O programa de sócio-torcedor pode ser um caminho para se descobrir um pouco mais sobre o consumidor de um clube. Mas, e aí começam uma das críticas ao trabalho feito hoje em dia, o sócio-torcedor ainda é visto apenas como um meio de se fazer venda antecipada de ingressos, sem ir além disso.

Até agora os dados dos torcedores inscritos nesses programas são pouco utilizados pelos clubes para fazer venda de produtos, promoções, etc. Por que não buscar um parceiro para fazer ações com essa torcida cadastrada? Por que não fazer promoções exclusivas para essas pessoas com a parceria e o patrocínio de empresas interessadas nesse tipo de consumidor específico?

Hoje, mais do que nunca, o torcedor só como torcedor não serve para os clubes. Dizer que "torce" para um time não é mais um ativo valioso. Não é a quantidade que interessa, mas muito mais a qualidade desse torcedor. Quem eles são? O que eles consomem? De que forma ele torce para o seu time? Ele compra produtos? Quando? Com que frequência? De que forma? Ele tem cartão de crédito? Ele usa aparelho celular? É pós-pago ou pré-pago?

São perguntas que diversas empresas gostariam de fazer e poder ter respostas fiéis dos seus consumidores. Com o componente paixão que o esporte carrega, é muito fácil extrair dados desse tipo do torcedor. E usá-los para conseguir mais patrocinadores e maior receita ao longo do tempo.

O sócio-torcedor pode ser a base para essa mudança, assim como são os cartões de fidelidades nas lojas. Por enquanto, os clubes ainda se prendem muito no tamanho da torcida, quando a questão principal deveria ser, essa sim, qual é a torcida mais consumista do Brasil? Mas, para saber essa resposta, é preciso, antes de tudo, saber quem é o torcedor.

Por Erich Beting às 19h32

31/07/2009

O sócio-torcedor

A polêmica que levantei por aqui a respeito dos progamas de sócio-torcedores no Brasil parece ter gerado uma boa discussão. Tanto que ainda não respondi aos comentários feitos pelos leitores porque percebi que não seria muito produtivo pelo curto espaço que existe por lá para dar a resposta.

Àqueles que comentaram e sugeriram aprofundamento de debate, peço desculpas pela ausência, também forçada pela correria do dia-a-dia com Máquina, blog, twitter, BandSports, etc. E também ainda não será agora que virá uma discussão um pouco mais longa. Só deixo aqui algumas considerações iniciais.

Essa discussão mostrou que ainda tem muita gente que confunde sócio-torcedor com facilidade para acesso aos jogos de futebol. Significa que a proposta foi atingida com a provocação.

Será que sócio-torcedor deve dar como maior benefício a venda de ingressos? Bom, como é hoje o sistema de venda de ingressos para os torcedores no Brasil, realmente ser sócio-torcedor e ter essa facilidade é uma vantagem acima de qualquer outra! Por isso mesmo que, no final de semana, falarei com calma sobre o tema.

Sábado e domingo colocarei posts para falar sobre a importância do relacionamento com o torcedor para a sobrevivência de um time de futebol.

Aos que mandaram comentários, tentarei responder individualmente, mas já deixo aqui o agradecimento pela vontade de debater o assunto.

Por Erich Beting às 08h26

Calendário impede jogo do Corinthians contra o Barça

A notícia passou meio que despercebida no noticiário brasileiro. No dia 23 de julho, o diário catalão "El Mundo Deportivo" confirmou que o Manchester City disputará o Troféu Joan Gamper no dia 19 de agosto. Até aí, nada demais. Afinal, esse troféu marca, desde 1966, a abertura da temporada do Campeonato Espanhol, sendo que até 96 eram quatro times que disputavam o torneio. Mas o curioso é que o City foi a quarta opção de disputa do torneio. A primeira delas, de acordo com o diário espanhol, era o Corinthians.

A ideia era fazer Ronaldo voltar a jogar no Camp Nou, a casa do Barça e local onde o atleta teve diversos momentos gloriosos. Antes mesmo de o atacante se machucar, porém, o Corinthians já tinha recusado o convite. O motivo, é claro, foi a falta de data disponível.

Como já discutimos aqui, a mudança de calendário do futebol brasileiro é fundamental. Ou, melhor, o importante é a adequação do calendário do Brasil ao da Europa e de diversos outros países. E o caso desse torneio em Barcelona mostra o quanto isso é importante para o negócio do futebol no Brasil.

Se não daria receita direta ao clube, sem dúvida esse jogo contra o Barça seria uma chance única para fazer com que a marca do Corinthians se tornasse mais conhecida na Europa. Impulsionada pela presença de Ronaldo, a partida teria uma cobertura mundial da mídia, ampliando o conhecimento das pessoas sobre o clube brasileiro.

O problema de o Campeonato Brasileiro ser disputado durante as férias do futebol na Europa não é, claramente, apenas a saída de jogadores importantes numa reta decisiva da competição.

Por Erich Beting às 23h27

30/07/2009

Cielo: ouro do trabalho, do planejamento, da dedicação...

E o Brasil voltou a ser medalha de ouro e detentor do recorde mundial na natação. Ops! Ou melhor. Cesar Cielo voltou a ser um assombro na conquista de mais uma vitória entre os monstros da natação mundial.

Vitória que valeu o choro, a emoção e a dedicatória a quem o apoiou em mais essa conquista. E que mostra o quanto é possível obter resultado quando se tem dedicação, trabalho, planejamento, ambição, etc.

Cielo vem dizendo, há tempos, que vai baixar suas marcas nos torneios que disputar. E cumpre o que promete. Ou melhor, o que projeta.

Mas ele pode fazer isso. Afinal, tem treinado, cumprido toda uma meta de trabalho e de aprimoramento de resultados que mostram a cada recorde, a cada ouro, o seu resultado. E, o que é melhor, mostra como as coisas podem dar certo quando existe um plano de desempenho bem delineado.

Plano que é 100% americano. Cielo treina nos EUA desde antes do ouro olímpico em Pequim, que não foi fruto do acaso e, MUITO MENOS, de qualquer mérito da CBDA, entidade que cuida (ou deveria cuidar) dos interesses dos desportos aquáticos no país.

Em 2007, a mídia voltou o foco para Thiago Pereira, que se tornou o maior vitorioso em Pan-Americanos ao conquistar seis ouros, uma prata e um bronze. Cielo, assim como os atletas americanos, estava quietinho, competindo, mas muito mais com o foco num treinamento de luxo para dar tudo de si no Cubo Mágico de Pequim.

Qual a diferença entre um e outro?

Thiago sempre fez questão de treinar no Brasil. Cielo, por sua vez, percebeu que precisaria buscar o modelo americano de treinamento para conquistar algo a mais na natação. Os ouros no Pan do Rio renderam a Thiago toda uma badalação pré-Pequim e bons contratos publicitários. Cielo, agora, colhe os frutos (e muito mais dólares) da estratégia de ser um atleta moldado pelo estilo americano de produzir campeões.

O Brasil tem bom histórico na natação, isso é inegável. Mas, para produzir um campeão olímpico e recordista mundial, está claro que é preciso muito mais do que história...

Cielo já tem emprego garantido na aposentadoria. Poderia virar um grande consultor para implementar, por aqui, uma metodologia de treinamento e de formação de atletas que garantiria ao país um lugar permanente entre os melhores do mundo. Resta saber se haverá interesse político de quem conduz o esporte por aqui de fazer isso!

Por Erich Beting às 17h30

Se a moda pega...

A Argentina decidiu adiar o início de seu campeonato. O motivo: clubes que estão em dívida com os jogadores (leia mais aqui). Pois é, não estamos lendo nada errado por aqui. O mercado do futebol na Argentina é, atualmente, umas cinco vezes menor que o do futebol brasileiro, pelo menos.

Mas, por lá, existe um sindicato dos atletas forte e preocupado com a classe, principalmente com as condições dos ex-atletas. Por isso mesmo, o clube dever para o atleta é uma ofensa ao argentino. E isso é punido com aquilo que é o mais básico. Não pagou, não tem espetáculo.

Não é uma questão de ser desse, daquele ou de outro "mundo". É uma questão de cultura. Por aqui, vale muito mais garantir o seu, e o outro que trate de se virar. Se a moda pega por aqui, provavelmente teríamos muitos clubes alijados da disputa do campeonato.

Mas que isso poderia servir para sermos mais responsáveis na gestão do nosso futebol, ah, sem dúvida que serviria!

Por Erich Beting às 23h44

29/07/2009

Um ano em um jogo

Por Tony de Cala*

Mais uma quarta-feira recheada de jogos pelo Campeonato Brasileiro, clima de decisão, times precisando de uma vitória para se classificar.

 

Sim, o assunto aqui é o Campeonato Brasileiro. Mas o Brasileirão da Série D, equivalente à Quarta Divisão do futebol brasileiro. São times do Brasil inteiro disputando um lugar melhor ao sol.

 

E o destaque desta quarta-feira balofa é a curiosa situação que se encontra a cidade de Caruaru (PE), onde teremos o jogo Central x Santa Cruz.

 

Um jogo aparentemente normal, não fosse o fato de que uma combinação de resultados pode levar o Santa Cruz, um time de tradição, com uma torcida gigante em Pernambuco, a dar adeus ao sonho de subir para a Série C. E, o que é pior, logo na primeira fase do campeonato!

 

E o que isso tem a  ver com um blog que fala de negócios do esporte?

 

A resposta está numa palavra: planejamento.

 

Se o Santa não se classificar, o ano de 2009 vai acabar para o time coral. E mal completamos a primeira metade do ano!!!

 

Como um time com a grandiosidade do Santa Cruz, que completará 100 anos em 2014, pode se manter nos dias de hoje disputando apenas a Série D do Brasileiro?

 

Se um clube passa por dificuldades de arrecadação de receitas na Série A, o que dizer de um clube na Quarta Divisão. E, para piorar, sendo o dono do maior estádio de Pernambuco, com capacidade para mais de 60 mil pessoas?

 

O clube se mobilizou, empresários ajudaram na reforma do Arruda, criaram um grande barulho em torno da ressurreição do time. Mas a sensação é de que tudo isso não basta.

 

O último título de relevância foi a conquista do Estadual de 2005, porém a realidade de hoje é bem diferente. O manual de sobrevivência, nesse caso, substitui os livros de gestão.

 

A continuar do jeito que está, o futebol brasileiro substituirá estádios cheios em Recife para dar espaço a “Arenas Barueris”, com meia dúzia de torcedores, mas com o caixa em dia.

 

Seria o sinal dos novos tempos?

 

*Tony de Cala é profissional de marketing esportivo, proprietário da agência DC Marketing

Por Erich Beting às 19h03

O negocião da Fórmula 1

Não tem jeito. Na Fórmula 1, geralmente a notícia ruim dura muito pouco tempo.

Hoje pela manhã a BMW fez um anúncio para lá de interessante. Não estará mais no esporte em 2010 por uma mudança de posicionamento da empresa. A decisão tem justificativa clara e direta. A empresa quer ser mais ecologicamente correta e, por isso, não tem sentido participar de um evento que consome milhões de litros de combustível de energia não-renovável, além de contribuir com a emissão de diversos poluentes.

O anúncio da BMW foi, mais ou menos, uma espécie de alerta para a F1. Principal categoria do automobilismo, a receita da F1 é ser extremamente consumista. Tudo nela é exagerado, o que contribuiu, ao longo do tempo, para a geração de uma fama mundial gigantesca. Só que, em tempos de conscientização e, principalmente, de fiscalização ambientalista, a fórmula que consagrou o "circo da Fórmula 1" pode entrar em parafuso.

Só que o negócio que hoje envolve esse "circo" é grande demais. E muito bem preparado para reagir em épocas em que sintomas de crise começam a aparecer.

Quando poderíamos começar a gerar esse tipo de discussão de ecologicamente correta da F1 (e confesso que só não a fiz antes por aqui por absoluta falta de tempo de escrever o texto), eis que o "circo" volta a pegar fogo.

A Ferrari anuncia aquela que pode ser a corrida de despedida de Michael Schumacher, o maior campeão da história da F1. O homem que sintetiza a profissionalização do esporte que, desde os seus primórdios, é um dos mais profissionais que existe. Schumacher só deve correr em Valência, no GP da Europa, em subsituição a Felipe Massa.

É um negocião. Uma grande jogada para apagar qualquer fogo que poderia começar a ser produzido e comprometesse a lona que cobre esse imenso circo.

A princípio, Schumacher estará apenas nessa corrida. Uma participação mais do que abençoada, já que os espanhóis reclamavam da ausência de Fernando Alonso (punido pela pataquada da equipe Renault no último final de semana no GP da Hungria) e do impacto que isso poderia gerar ao Grande Prêmio em solo espanhol.

Agora, com Schumacher, todos os argumentos servem para que o mundo inteiro acompanhe o GP da Europa de uma temporada marcada pela imprevisibilidade. TV, bilheteria, patrocinadores, anunciantes, organização. Todos estão sorrindo de orelha a orelha com esse anúncio feito pela Ferrari. Se faltava motivo para ver a corrida do dia 23 de agosto, agora não existe razão pela qual não se vá ao autódromo ou não se ligue a televisão, para ouvir o Galvão Bueno a que cada um tem direito, declamando odes de amor e saudosismo a Michael Schumacher.

Alguém aí se lembra o que aconteceu mesmo com a BMW?

Por Erich Beting às 15h55

28/07/2009

O sócio-torcedor: receita antecipada ou perda de dinheiro?

O Clube dos 13 fez festa hoje, em comunicado divulgado à imprensa. Segundo a entidade, o Brasil tem, pelo menos 380 mil sócios-torcedores no futebol. Essa é a constatação de um levantamento feito com os 20 clubes filiados ao C13 (que, não à toa, estão entre as 20 maiores torcidas do país, mas não representam todas). Nele, mapeou-se um pouquinho o que cada clube tem hoje com o seu programa de associado-torcedor, aquele que não tem direito a voto no clube, mas paga uma mensalidade em troca de alguns benefícios.

Modelo adotado em alguns clubes da Europa, o sócio-torcedor é visto hoje como tábua de salvação dos clubes no país. O maior argumento pró-programa é a antecipação de receitas que ele traz.

Hoje, o Internacional, líder absoluto com o seu programa, tem pouco mais de 100 mil sócios-torcedores pagando R$ 41,5 milhões ao ano para o Colorado. Sem dúvida é o benchmarking para todos os outros times do país, que ainda tentam fazer seus projetos decolarem.

Mas o Inter é a exceção.

No Brasil, o sócio-torcedor é erroneamente tratado como um facilitador dos dirigentes naquilo que hoje é o maior problema do futebol: o acesso do torcedor ao jogo.

Os clubes enxergam o projeto como uma forma de "encher" o estádio sem depender da venda de ingressos para uma partida. Foi assim, por exemplo, que o Inter lançou o seu programa. O sócio-torcedor já tinha ingresso cativo para o jogo do time. Veio o título da Libertadores em 2006 e aí o sistema ruiu. A chegada à reta final forçou o clube a brecar o programa e relançá-lo. O motivo, obviamente, é que a procura pelo título de sócio-torcedor era maior do que a capacidade do estádio.

O programa de sócio-torcedor do Colorado foi, então, reprogramado. Em vez de ingresso para o Beira-Rio, o sócio-torcedor passou a ter facilidades na aquisição dos bilhetes, entre outras coisas. Mas, para chegar aos 100 mil cadastrados, foi preciso criar todo um programa de relacionamento com a torcida, por meio de estratégias de marketing, que fez cada um perceber o quanto é possível ajudar o clube pagando uma contribuição mensal e tendo, em troca, alguns benefícios para a aquisição de produtos oficiais, ENTRE ELES o ingresso para o jogo.

O Grêmio, na esteira do sucesso rival, seguiu caminho parecido. Hoje, é o segundo da lista entre os times do país com o maior número de sócio-torcedores. Contabiliza 53 mil cadastrados e já uma considerável receita mensal por conta disso.

O maior problema, porém, é que os exemplos de melhor utilização do sócio-torcedor estacionaram em Porto Alegre. Nas demais praças, Corinthians (46 mil pessoas) e São Paulo (42 mil) aparecem como terceiro e quarto clubes com mais cadastrados, sendo que proporcionalmente suas torcidas são muito maiores do que a dos times do Rio Grande do Sul. E é essa mudança de leitura que precisa ser feita.

A partir do momento em que o clube olha o sócio-torcedor como uma boa forma de tirar o problema de venda de ingressos da frente, ele deixa para trás uma gama de outros torcedores, que não têm interesse em contribuir mensalmente com o time, mas que podem perfeitamente consmuir diversos produtos oficiais, ENTRE ELES o ingresso para o jogo.

Os clubes, no final das contas dão as costas para diversos outros tipos de torcedores. São pessoas que podem dar muito mais dinheiro do que uma simples contribuição mensal. E que querem ter o direito de poder, quando lhe interessar, assistir a um jogo do time em seu estádio!

O sócio-torcedor pode ser uma espécie de cliente vip (muitos clubes fazem isso, como o São Paulo, que criou um torneio de futebol virtual para os sócios-torcedores). Encher um estádio só com ele é um tiro no pé. Fecham-se as portas para qualquer outro torcedor, tão fanático quanto o outro, mas que por algum motivo não faz parte do clube vip.

Obviamente que é para se comemorar, e muito, a iniciativa de termos cada vez mais sócio-torcedores. Só que eles precisam ter muito mais benefícios do que ir ao estádio, tirar foto com o jogador predileto, etc. Ele tem de ser um privilegiado. Só assim a cultura de consumo do esporte vai mudar.

Mas, aos poucos, já podemos perceber que tamanho de torcida não é tão importante. Muito mais interessante é ter um torcedor que seja consumidor. Só assim é que se ganha dinheiro.

Por Erich Beting às 18h35

27/07/2009

O esporte aprendeu que tem de se comunicar*

É cada dia mais notório que o esporte vive um período de “pasteurização” da cobertura da imprensa. O jornalismo investigativo, descobridor de grandes histórias do mundo do esporte, está com os dias contados. Ou, pelo menos, com a tendência a ficar cada vez mais raro de existir.

E qual é o motivo para isso?

Twitter, blog, sites oficiais e diversas outras ferramentas que transformaram a cara de se comunicar no mundo e se reflete também no esporte. A acomodação da imprensa, em parte, explica esse fenômeno. Em tempos de internet e comunicação mais do que instantânea, é cada vez mais fácil você obter informações de fontes oficiais sem a necessidade de correr atrás da notícia. Basta acessar todos esses citados e outros meios que a informação está ali, disponível, como uma irresistível cara de fonte oficial (quando não é mesmo, como os recentes casos envolvendo Palmeiras, Santos, Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho...).

Mas talvez essa seja a origem para que esteja cada dia mais complicado o jornalismo esportivo ser uma escola de formadores de bons repórteres, como já foi no passado. O amadurecimento dos profissionais que atuam no esporte tem provocado uma certa preocupação com a qualidade da transmissão da notícia. E isso faz com que, finalmente, o esporte discuta a necessidade de profissionalização dos seus departamentos de comunicação, com mais uma vez o futebol sendo o massificador desse processo.

Esse cenário é péssimo para o jornalismo de investigação, mas permite que o esporte caminhe cada vez mais para uma profissionalização num dos campos mais carentes, que é o da gestão. Aos poucos, essa evolução no comando se refletirá nas outras áreas do esporte. O jornalismo já “sofre” um pouco com isso. Mas, do outro lado, os dirigentes nunca estiveram tão tranquilos no comando de suas funções. Pelo menos o telefone toca muito menos...

*Coluna originalmente publicada, com algumas alterações, na Universidade do Futebol.

Por Erich Beting às 20h36

26/07/2009

O vôlei que dá certo

Escrevo ainda antes do resultado final de Brasil e Sérvia pela decisão da Liga Mundial. Mas o vencedor é o que menos importa. Só o fato de o país mais uma vez chegar à decisão da Liga mostra o quanto o trabalho de renovação de jogadores tem sido fundamental para que o vôlei se mantenha como o esporte número 2 do Brasil.

O trabalho incessante da CBV em formar novos atletas permite que o Brasil mantenha sempre um vínculo do torcedor com o time nacional. A seleção que chegou à final na Sérvia consegue preservar jogadores-chaves da geração de ouro em 2004 (Giba e Serginho) ao mesmo tempo em que revela atletas como Lucas, Leandro Vissotto e Sidão. Essa "troca de guarda" que a CBV consegue promover faz com que o vôlei continue em evidência na mídia e, mais do que isso, faça com que o torcedor não se depare com uma seleção totalmente nova, sem nenhuma cara conhecida.

Esse vínculo é fundamental para manter o torcedor atrelado ao time e, com isso, continuar a consumir o "produto" seleção.

O maior problema, porém, é justamente essa grande preocupação que existe com a renovação do time brasileiro. Claramente o vôlei privilegia a seleção. Com isso, a prioridade sempre é a competição entre seleções, e o clube se transforma num mero "apoio". O vôlei que dá certo, sem dúvida, é o da seleção. Enquanto não se olhar com mais carinho para os clubes, correremos o risco de ver, aos poucos, a base para a formação de atletas ser cada vez menor. E isso, para o futuro de qualquer esporte, é o primeiro passo para grandes dificuldades.

O basquete é o melhor exemplo disso.

Por Erich Beting às 16h55

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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