Blog do Erich Beting

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08/08/2009

Palmeiras segue com calção indefinido

Primeiro foi o acordo da Cosan que começou a desandar. A Lupo chegou com uma boa proposta e tomou a dianteira, a ponto de a própria empresa confirmar que só faltava a assinatura do contrato para passar a exibir sua marca no calção do Palmeiras.

Agora, a Unimed atravessou o negócio e está muito próxima de ser anunciada como patrocinador do calção palmeirense. A atitude revoltou a direção da Lupo, que apostava no clube paulista como uma das vitrines para a sua investida no futebol. Com isso, a indefinição continua.

O Palmeiras perde, e muito, com essa indefinição e, muito mais, com a atitude da diretoria nessas negociações.

Em busca de um valor maior de patrocínio, o clube já fechou as portas de uma empresa e está muito próximo de encerrar as negociações com outra. É o velho problema de buscar muito mais o dinheiro do que o projeto. A "ganância" de faturar um pouco a mais pode render uma incerteza para novos investidores. A situação só não é pior porque o futebol tem uma força de mídia muito grande. Se fosse em qualquer outra modalidade, provavelmente o clube perderia a chance de obter novos patrocinadores.

Por Erich Beting às 16h58

Um exemplo de Dortmund

"Agradecemos aos nossos 50.675 torcedores".

É mais ou menos com essa frase que o Borussia Dortmund acaba de dar um ótimo exemplo àqueles que pensam que sócio-torcedor é a melhor maneira de antecipar receita e não precisar se preocupar com venda de ingressos.

Os 50.675 torcedores a que o Dortmund se refere são aqueles que compraram o carnê para a temporada 2009-2010 do Campeonato Alemão. O detalhe: as vendas tiveram de ser suspensas para não atrapalhar o plano de negociação de ingressos para a temporada.

A capacidade do Signal Iduna Park, casa do Dortmund, é de 80.552 lugares. Se quisesse, facilmente todos os assentos teriam sido vendidos via carnê. Afinal, a euforia pelo time é grande e a torcida é conhecida pela gana em comparecer aos jogos do clube.

Só que o Dortmund resolveu suspender as vendas. O motivo é claro. Melhor do que antecipar toda a receita, é deixar uma parte do estádio com assento livre para venda durante o campeonato.

Por trás dessa decisão existem dois fatores. O primeiro é a geração de lucro do estádio. O clube sabe qual é o número de ingressos que podem ser vendidos antecipadamente para que não haja prejuízo no dia da partida. O restante é separado para aumentar o faturamento e o potencial de lucro. Afinal, com o afunilamento do campeonato, a demanda por ingressos pode ficar ainda maior, e o torcedor pode pagar ainda mais pela entrada.

Outro fator que interfere é o consumo do torcedor no estádio. Se a venda antecipada ocupar todos os lugares do estádio, a tendência é o torcedor deixar de consumir produtos e alimentos nos jogos após um certo tempo.

A venda antecipada de ingressos é ótima certeza de que o estádio não dará prejuízo para um time ao longo da temporada. Mas um clube não pode se contentar em vender toda a capacidade com muita antecedência. O Borussia Dortmund deu um ótimo exemplo disso.

Por Erich Beting às 16h11

07/08/2009

Duas importantes considerações

A respeito da possível mudança de calendário.

1 - O contrato da Globo para transmitir o Brasileirão vai até 2011. Precisaria haver um ajuste com a emissora (não em valores, mas em plano de transmissão) para essa mudança do calendário a partir do ano que vem.

2 - Ricardo Teixeira já está "garantido" na presidência da CBF até 2015. Em tese, ele não depende do voto das federações até lá. Mas, é claro, precisa politicamente estar bem com elas para continuar à frente da CBF até lá.

Por Erich Beting às 19h17

Novo calendário?

Acabo de ler a notícia de que a CBF decidiu encaminhar uma proposta para adequar o calendário brasileiro ao europeu. É um ótimo começo de caminho, pena que tem muito mais cara de jogada política do que realmente um planejamento estratégico para o futebol nacional.

Alguns fatores influenciam, e muito, essa decisão. E todos eles são meramente políticos, sem preocupação com um negócio mais rentável para todos. O primeiro deles é a vontade do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em ver o Campeonato Brasileiro sofrer menos com a saída de atletas. Outros atores nesse cenário tão ou até mais fortes que Lula, são a Globo, fortemente contrária à mudança, e as federações estaduais, que elegem o presidente da CBF.

Um calendário unificado, como já debatido por aqui, é um caminho para ampliar a geração de receita para os clubes brasileiros. Num primeiro momento, apenas com a disputa de torneios amistosos tanto no exterior quanto aqui (agora é mais fácil trazer um clube do exterior para excursionar no meio do ano). Depois, num plano mais amplo, com um projeto consistente para fazer com que as marcas dos clubes brasileiros sejam, de fato, internacionais. E isso não significa apenas conhecimento dos times, mas venda de produtos licenciados, venda de direitos de transmissão de amistosos, etc.

Não é para fazer média com um ou com outro que se faz uma alteração dessas. E aí é que começa a fazer sentido a ideia de que a CBF só quer propor uma alteração a partir de 2011.

Em 2010, haverá as eleições presidenciais. Sem Lula no poder, a pressão pública para uma mudança pode arrefecer, mesmo numa hipotética chegada de José Serra (outro fã do futebol e defensor da adequação) ao cargo. Para melhorar o cenário contra a mudança, os dois grandes parceiros da CBF, hoje, são Globo (detentora dos direitos de transmissão de todos os torneios e propriedades da entidade) e federações, que não querem de jeito algum uma mudança.

O maior problema dessa nova adequação do calendário será a acomodação dos Estaduais. De relevância histórica, hoje o Estadual é pouco interessante para a elite do futebol. À exceção de São Paulo, em que os grandes ganham muito dinheiro para disputar o torneio, os times dos outros estados dão pouca bola para a competição local. Mas as federações seguem como a principal força no voto para a presidência da CBF. Da mesma forma, para a Globo, a venda do pacote do futebol é mais fácil de ser realizada em setembro e outubro, quando os grandes anunciantes já decidiram suas verbas para o ano seguinte. Ela teria de alterar muito o seu sistema de venda.

Se houvesse vontade mesmo de se adequar o calendário, o ano de Copa seria a "desculpa" perfeita para isso. Os Estaduais um pouco mais espaçados no primeiro semestre e, após a Copa do Mundo, a temporada 2010-2011 do Campeonato Brasileiro teria início. Simples assim, com uma boa justificativa (as férias da Copa) para que tudo começasse de novo.

A política, mais uma vez, é colocada à frente do negócio.

Por Erich Beting às 18h03

Esperando a janela

Pretendia esperar o término da "janela de transferência" da Fifa para fazer um balanção de uma das poucas coisas que faltam para tirar das costas da CBF qualquer crítica sobre a organização do Campeonato Brasileiro da Série A.

Mas o mais curioso da tal "janela" é que parece, cada vez mais, que os clubes e a imprensa esperam ansiosamente por ela. Que o jogador já esteja animado para uma possível transferência para o exterior é mais do que natural. Só que a euforia tomou conta de todos.

A saída de jogadores para o exterior no meio do principal campeonato do país é um absurdo. Não entro aqui no detalhe de que o clube tem de se fortalecer comercialmente para evitar que o atleta seja negociado. Só que é cada vez mais nítido que, pelos clubes, a situação atual é relativamente cômoda.

Afinal, do jeito que está hoje, nenhum jogador vai para o exterior no meio do ano sem remunerar o clube. Com o campeonato em vigência, obrigatoriamente o atleta tem contrato assinado e válido com o time. Sendo assim, apenas quando houver o pagamento de uma multa ele poderá se transferir para outra equipe.

E aí é que está o "pulo do gato" da janela. Sim, é um absurdo que os time se desfalquem no decorrer do torneio mais importante do país. Mas como a formação de atletas é uma constante no país que mais fabrica e exporta pé-de-obra, essa ausência geralmente é rapidamente recuperada.

Tudo isso faz com que os clubes desistam de brigar ferozmente para que o calendário brasileiro seja adaptado ao europeu. Afinal, para eles, a janela é cômoda para negociar jogadores e, com isso, faturarem dinheiro suficiente para fechar o ano no azul. Isso sem contar nos parceiros comerciais de diversas equipes (Traffic e DIS são alguns exemplos), que conseguem obter grande retorno do investimento com essa negociação.

A cada dia que passa, fica claro que o Brasil se conforma com o status de exportador de pé-de-obra. O problema é que, na ponta final do negócio, isso é prejudicial. O país conseguiria fortalecer, e muito, as finanças dos clubes se adequassem os calendários. Amistosos e contratos mais racionais com jogadores são alguns dos pontos a se considerar.

E, também, isso impediria até mesmo que clubes fossem montados pensando-se apenas no primeiro semestre, como é o caso do Corinthians. Para 2010, o time é uma incógnita. Se a temporada seguisse uma lógica, seria muito mais interessante sob todos os aspectos, inclusive para os patrocinadores.

Mas, hoje, todos aguardam ansiosamente a janela. A única exceção, talvez, seja o Palmeiras de Belluzzo, que parece ter fechado um pacto para não vender jogadores no meio do ano. Mas, se o time estivesse numa fase em que se sentisse "saturado" de títulos como o atual São Paulo, por exemplo, o discurso provavelmente seria beeem diferente.

Por Erich Beting às 02h07

06/08/2009

O custo da vitória a qualquer preço

O Grupo Rede é uma das principais empresas de energia do país. No ano passado, a empresa criou uma revolução no atletismo do país, ao criar o projeto mais ambicioso que a modalidade já tinha visto. Com investimento previsto de R$ 14 milhões, a Rede investiu na formação de um time de ponta no atletismo.

Construiu, com investimentos de R$ 7 milhões, o maior centro de treinamento do país, o único com pista reconhecida pela Iaaf, a federação internacional. Contratou atletas e técnicos de ponta, como Maurren Maggi, recém-medalhista de ouro em Pequim, e seu treinador, Nélio Moura. Foi atrás de médicos, fisiologistas, preparadores físicos.

Tamanho investimento está prestes a ser descontinuado, pelo menos no âmbito profissional. O doping de seis atletas patrocinados pelo Grupo Rede, que treinavam no CT de Bragança Paulista, foi um baque para Jorge Queiroz de Moraes Junior, presidente da empresa, ex-atleta e idealizador de todo o projeto. 

Extremamente questionado pela estratégia agressiva de investimentos, o Grupo Rede já não vinha obtendo os resultados projetados. No Troféu Brasil deste ano, os atletas tiveram de amargar a derrota para o BM&F, maior concorrente e que foi o maior "prejudicado" pela entrada do rival no mercado, que contratou diversos atletas do mais antigo investidor privado do atletismo no país.

Agora, Moraes Junior pensa em abandonar o trabalho com os atletas de ponta e direcionar todo o projeto construído para a formação de novos atletas. O doping é um dos maiores problemas hoje para qualquer modalidade. Ele mancha todo e qualquer resultado obtido pelo atleta e, também, respinga as suspeitas para seus patrocinadores.

Para a imagem do Grupo Rede, o gerenciamento da crise foi bem feito. Ontem mesmo, quando o escândalo foi revelado, foi feita uma entrevista coletiva com o técnico Jayme Netto, que assumiu a responsabilidade pelo doping. Da mesma forma, o posicionamento de Moraes Junior ao falar com a imprensa foi importante para manter a credibilidade do projeto e mostrar que a empresa não teve influência no caso. Ou seja, deixou claro que não foi ela quem pediu para os atletas buscarem a vitória pelo doping.

O custo da vitória a qualquer preço é altíssimo. E que o exemplo desse caso sirva para os demais atletas, treinadores e patrocinadores perceberem que o doping, além de prejudicial à saúde, é "bom" apenas naquele instante da vitória. Depois disso, tudo se volta contra você.

Por Erich Beting às 08h17

Como usar bem o sócio-torcedor

Nesta manhã, em Campinas, teremos uma mostra de como um projeto de sócio-torcedor pode ser eficiente. A companhia aérea Azul anunciará um patrocínio com Guarani e Ponte Preta. Mais uma vez os dois clubes se uniram para discutir o patrocínio. Já tinha sido assim no caso do acerto com a Telhanorte.

Mas o maior barato da história é que o acordo prevê a realização de promoções para os sócios-torcedores de Guarani e Ponte. Para a empresa, é oportunidade boa para vender passagens. Para o clube, é um bom serviço que pode ser dado com exclusividade a quem participa do projeto.

Não é caso único de boas sacadas de sócio-torcedor, sem dúvida, mas é um bom exemplo de que o benefício não pode ser apenas a venda de ingresso para os jogos.

Por Erich Beting às 07h44

05/08/2009

A Copa do Mundo é nossa!

Entrevista de Ricardo Teixeira nesta quarta-feira publicada na Folha de S. Paulo, no Estadão e no Globo já mostra o recuo da organização da Copa do Mundo no Brasil.

Sim, o Mundial terá estádios financiados com dinheiro público. Pior que a constatação do óbvio pelo presidente da CBF e Comitê Organizador da Copa (algo que ele jurava que não aconteceria, assim como a verba pública nos estádios), está o fato de que até os estádios privados, caso do Morumbi, já começam a ver numa linha de crédito do BNDES uma excelente solução para a falta de grana para bancar as reformas.

A Copa do Mundo é excelente para o Brasil. É uma oportunidade gigantesca para o país fazer um ótimo trabalho de planejamento e execução de um plano de marketing ambicioso, mostrando o Brasil como pólo turístico e também como país de primeiro mundo, capaz de gerar negócios com importantes parceiros comerciais.

Mas tudo isso está indo por água abaixo. A politicagem que marcou a escolha das 12 sedes (que demorou 1 ano e meio para ser concluída!), a politicagem que ainda marca a escolha da cidade-sede do jogo de abertura (que ainda levará quase um ano!) e o discurso mutante de Teixeira levam o país para o triste caminho que norteou a Copa na África do Sul. Uma infinidade de problemas para execução das obras, um sem-fim de improvisos nas instalações e a certeza de que, passado o Mundial, pouca coisa será útil para o país aproveitar.

Talvez dois ou três estádios mais modernos ajudem a trazer nova receita para o futebol, mas os outros dez que ficarão às moscas lembrarão que, mais uma vez, a política é feita apenas pelo poder, e não pelos projetos.

A Copa, no final das contas, será reflexo da vida pública deturpada que temos hoje em dia. E o futebol, em vez de dar exemplo para mudar a estrutura das coisas, seguirá com os mesmos vícios de sempre. No final, apesar de a Fifa insistir em dizer que a Copa do Mundo é da Fifa e realizada no Brasil, não restarão dúvidas de que a Copa do Mundo é nossa.

Ou melhor: a conta da Copa do Mundo é nossa...

Por Erich Beting às 07h57

04/08/2009

Copa turbina faturamento da CBF

O anúncio de que o Brasil será sede da Copa do Mundo de 2014, atrelado a um novo programa de relacionamento com os patrocinadores, fez a CBF virar a vedete de grandes empresas. Até agora, a entidade que comanda o futebol no Brasil é quem tem mais faturado com o Mundial tupiniquim.

Agora é a vez de o Pão de Açúcar patrocinar a CBF. O acordo só depende de assinatura e deve gerar US$ 5 milhões ao ano para os cofres da entidade.

O produto seleção brasileira segue em alta. Em ano que é véspera de Copa do Mundo, a vontade de atrelar produtos ao time nacional é ainda maior. E, com a possibilidade de garantir o seu lugar ao sol na Copa brasileira, então, não existe melhor coisa a se fazer. O Pão de Açúcar é o quarto patrocinador a fechar com a CBF desde o anúncio da Fifa, em outubro de 2007 (a fila já conta com Itaú, TAM e Gillette). Além disso, a entidade já havia renegociado os valores com a Vivo, que paga US$ 15 milhões ao ano para estar atrelada à seleção.

Agora parece que dá para entender, também, porque Ricardo Teixeira se empenhou tanto em trazer a Copa do Mundo para o país.

Por Erich Beting às 11h42

03/08/2009

Palmeiras deixa Cosan e fecha com Lupo

O acerto do Palmeiras com a Cosan virou água. Depois de meses de discussão, o clube desistiu do acordo com a empresa de combustíveis. Houve um impasse nas negociações envolvendo as propriedades que seriam oferecidas à Cosan.

Em compensação, o clube praticamente acertou patrocínio com a Lupo, que estampará sua marca no calção palmeirense após aprovação da Samsung. O acordo deve render R$ 3 milhões até o final do ano para o Palmeiras.

Mais do que os valores e o novo patrocínio, o negócio mostra a ofensiva da Lupo no mercado esportivo. Conhecida pela atuação no mercado de roupas íntimas, a Lupo já é dona do licenciamento de artigos da Fifa para a Copa do Mundo de 2014. E, agora, também será fabricante de uniformes, com patrocínio fechado com o Náutico (mais informações amanhã na Máquina do Esporte).

É, o futebol parece que dá muito dinheiro...

Por Erich Beting às 20h24

Os twitters de cada um

Rubens Barrichello deu um show. Desde o acidente provocado por uma mola solta de seu carro em Felipe Massa, Rubinho mostrou como deveria se comportar para dar entrevistas.

Ficou nítido que ele deveria concedê-las apenas se elas fossem limitadas a 140 caracteres! E isso valeria para todos os meios de comunicação! Até na hora de falar. Rubinho soube, como poucos, usar o Twitter como um porta-voz de seus pensamentos. Em vez de ir à TV Globo e dar entrevista com cara de choro, prestou um serviço para os seus fãs e para a própria imprensa ao atualizar num ritmo frenético o noticiário sobre o estado de saúde de Massa.

Hoje foi a vez de Nelsinho Piquet usar a ferramenta para expor algumas linhas sobre sua saída mais do que anunciada da Renault. Assim como já havia despistado Galvão Bueno lá atrás, Nelsinho usou o microblog para falar.

O esporte tem usado a ferramenta do Twitter para se comunicar com relativa rapidez e, principalmente, sem a pressão e o massacre da mídia nas perguntas sem fim (e geralmente repetitivas). Isso tem feito com que alguns esportistas se sobressaiam e mostrem que são capazes de análises coerentes de algumas situações.

Rubinho é o melhor caso. Se consegue ter tempo de pensar antes de falar (ou digitar, no caso), geralmente consegue trazer ótimas informações. Os twitters podem virar uma excelente ferramenta de marketing. Mas desde que o comunicador saiba usá-la.

E o esporte, como poucos outros setores, tem conseguido ser eficiente na comunicação via 140 caracteres.

Por Erich Beting às 16h51

02/08/2009

O torcedor e o futebol - parte 2

Dando sequência à série de debates sobre a relação do torcedor com o futebol no Brasil, uma bandeira que precisa ser levantada, para chegarmos à discussão sobre o sócio-torcedor como é visto nos dias de hoje. Como o torcedor tem sido tratado no relacionamento mais direto com o clube, que é a ida ao estádio de futebol?

Há 30 anos a história pouco muda. Ter acesso a ingressos é quase sempre impossível. E, quando há, a balbúrdia é gigantesca. Mas por que isso ocorre?

Muito dessa baderna está na própria relação do clube com o sistema de venda de bilhetes. Agora é que o futebol se deu conta de que não é vantajoso para o clube e, principalmente, para o torcedor, fazê-lo ter de se deslocar à bilheteria, enfrentar grandes filas e não ter a certeza do ingresso. Desde 2003, com o Estatuto do Torcedor, os clubes também foram obrigados a pulverizar a venda de ingressos, não mantendo em apenas um estádio, como geralmente acontecia (e que aumentava o potencial de desgraça na venda de ingressos para jogos de grande demanda).

Ao mesmo tempo, durante vários anos o futebol no Brasil viu-se refém de um sistema oneroso de venda de ingressos. Os clubes eram obrigados a determinar a carga de bilhetes que gostaria para aquele jogo e aguardar o sucesso, ou não, da venda das entradas. O tal do cartão magnético sempre foi uma pedra no sapato, porque os ingressos tinham de ser confeccionados com antecedência, sem a certeza de que seriam vendidos, mas com a obrigação de se pagar por eles. Além disso, o sistema permite uma ação de cambistas maior, num esquema feito diretamente com os guichês de venda nos clubes.

Foi nesse vácuo que surgiu o sócio-torcedor. Com o torcedor "comum" maltratado na relação com o clube, os programas de relacionamento apareceram para resolver dois problemas num só. O torcedor mais "fiel", que ajuda o clube mensalmente, tem acesso facilitado à compra de ingressos. Com isso, os clubes se livram da "obrigação" de se preocupar com a venda de bilhetes, algo que fica muito mais cômodo a partir do momento que é o sócio-torcedor quem preenche os lugares dentro do estádio.

E aí está um dos grandes erros de conceito dos programas de sócio-torcedor. Eles não podem se restringir a tirar dois problemas dos clubes, que são a venda de ingressos e a melhora da experiência do torcedor em ir ao estádio.

O sócio-torcedor tem de ir além da venda subsidiada de ingressos. Tem de se preocupar em, de fato, criar um relacionamento com esse "sócio", que contribui com o clube e tem de ter bons benefícios que vão além da entrada privilegiada nos estádios. Hoje, até na cabeça do torcedor a função dos programas feitos para ele é facilitar um pouco a tão combalida batalha para conseguir um ingresso para um jogo.

As precárias condições dos estádios de futebol no Brasil ajudam, e muito, para que a experiência de ir ao estádio seja sempre uma aventura, e não uma curtição. Isso também afasta o torcedor de alto poder aquisitivo do estádio e, no longo prazo, do futebol.

Os clubes precisam entender que existem diferentes maneiras de se consumir o produto futebol. Uma delas é ir ao estádio. E o sócio-torcedor não pode se restringir a isso. Até para conseguir adeptos de outras cidades e outros países (algo que geralmente é mais fácil, dada a distância sentimental que existe), os maiores benefícios não podem ser apenas a ida a um jogo.

O torcedor não está acostumado a ser visto como um consumidor quando o assunto é futebol. Durante anos houve um trabalho de convencimento do torcedor que ir ao jogo era um favor que ele fazia ao clube. Não era preciso ter conforto, segurança, paz. Nada disso! O que interessa é pagar o ingresso e se meter com mais 50 mil pessoas para "ver no que vai dar". Procon e código de defesa do consumidor são palavras que nunca passaram pela cabeça de quem consome o estádio de futebol no país.

Com tudo isso, de fato ser sócio-torcedor é um "negocião". Tanto para o clube, que mais uma vez não precisa se preocupar com a venda de ingressos, quanto para o torcedor, que tem o mínimo de certeza que terá o bilhete para o jogo. Só que quanto dinheiro não é deixado para trás nessa equação. Sim, o clube consegue uma receita, mas ela é finita. O estádio, que pode ser um excelente captador de receita para um clube, fica em segundo plano. E, o que é pior, passa a ser de um único público, sem haver uma reciclagem do torcedor que vai ao jogo.

O Corinthians quer, na Libertadores-2010, fazer do Pacaembu o estádio dos sócios-torcedores. Quanto dinheiro ele não deixará de arrecadar com isso. Quantos torcedores de fora do país estarão alijados de ver o clube em campo só para o benefício da casta dos "associados"? E quanto dinheiro se deixa de arrecadar com a venda de bilhetes pré-determinada, sem explorar a velha regra de oferta e procura do mercado?

Na Inglaterra, o Manchester United decidiu aumentar a capacidade do Old Trafford depois de perceber que houve uma estagnação e depois tendência de queda na receita que conseguia nos dias de jogos. O motivo era o fato de o estádio ter mais de 97% dos assentos vendidos por carnê. Isso fazia com que apenas 3% de novos torcedores fossem aos jogos. Só eles que poderiam ter interesse de, a cada final de semana, comprar na loja oficial, consumir mais alimentos, etc. A ampliação criou assentos ainda mais valiosos (o que aumenta o preço do ingresso) e um público totalmente novo, que consome não apenas o ingresso, mas todos os serviçõs disponíveis no estádio. Resultado: mais de 35% de aumento na receita dos dias de jogos.

O torcedor tem de ser tratado como o cliente mais importante de um clube de futebol. E o estádio é a cereja desse bolo. O torcedor tem de ter acesso a produtos oficiais em diferentes lugares, da padaria à loja de grife. Ele precisa ser incentivado a declamar o seu amor pelo clube por meio do consumo de produtos. Tem de ser respeitado como peça mais importante da história de um time de futebol.

O sócio-torcedor é um benefício a mais para aqueles que querem contribuir com o clube mensalmente mas não quer participar da vida social. Para ele é preciso pensar em diversas ações para que ele se sinta, de fato, especial. A começar pelos patrocinadores oficiais, que podem oferecer benefícios a esses "privilegiados". O estádio, no final das contas, é a ponta final desse processo. Tem de ser um complemento para o clube, e não a essência do projeto.

O programa de sócio-torcedor tem de funcionar como um bom meio para se relacionar com a essência de um clube, que é a sua torcida. E não para tirar o problema da venda de ingressos nos estádios, algo mais do que crônico nos dias de hoje e que também tem solução. Mas, sem dúvida, ela custa caro, com a reforma dos elefantes brancos que hoje se encontram no país. Mas isso é tema para outro post...

Por Erich Beting às 21h01

Medalha DO Brasil

Erro crasso aqui ontem!

Felipe França, de relação com a França, só o nome mesmo e um período de treinamentos por lá. França trouxe uma prata genuínamente brasileira, fruto das piscinas do Clube Pinheiros, as mesmas que já revelaram Gustavo Borges e Cesar Cielo.

Só que, para variar, a CBDA comemora a "evolução" do país. Já declarou que "nunca na história desse país" a natação teve um Mundial tão bom quanto este de Roma. É verdade, os resultados mostram uma melhora.

Mas por que será que a vitória só é alcançada quando o treinamento deixa o país e cai em outras águas? Isso, sem dúvida, a CBDA não faz questão de lembrar...

Por Erich Beting às 19h31

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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