Blog do Erich Beting

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05/02/2010

O poder de veto do COI

O Comitê Olímpico Internacional divulgou na última sexta-feira um comunicado aos milhares de atletas que participarão das Olimpíadas de Inverno em Vancouver. Nele, apresenta um relatório de como as "pessoas credenciadas" para os Jogos poderão fazer uso de blogs e outras ferramentas de comunicação durante o evento.

Para quem achou que era uma censura apenas à professora Kátia Rubio proibir o uso da palavra "olímpicos" e derivados num livro didático, sugiro a leitura na íntegra do documento (o link para ele é esse daqui).

Na busca incessante do direito de sua marca e de seus patrocinadores, o COI faz uma absurda proteção a qualquer tipo de ofensa aos Jogos Olímpicos. Se algum atleta vier a publicar imagens da Vila Olímpica, por exemplo, ele pode ser retirado da competição.

Mais uma vez, aqui, não se discute a questão da censura. Tenta-se explicar a lógica usada pela entidade para exigir isso de quem participa de uma edição de Jogos Olímpicos. O proprietário do evento é o COI, que tenta de maneira extrema assegurar que nada saia de seu controle. Quem quiser seguir a regra dele, está dentro da brincadeira. Quem não quiser, sofre as consequências.

Infelizmente foi com essa mão pesada sobre tudo que o COI conseguiu assegurar credibilidade aos seus patrocinadores, lá nos anos 80. E isso fez com que as Olimpíadas passassem a ser sinônimo de um megaevento totalmente vigiado. Em tempos de Big Brother, a comparação é inevitável.

Por Erich Beting às 18h21

COB leva maior delegação da história para Vancouver

O título desse post é irônico, mas também pode ser considerado trágico. No próximo dia 12 tem início os Jogos Olímpicos de Inverno, na cidade canadense de Vancouver. E o Brasil contará com a maior delegação da história de uma edição de Jogos de Inverno.

Não, infelizmente não me refiro aqui aos cinco atletas que lá estarão. Sim, isso mesmo. São apenas cinco competidores do país em solo canadense: Leandro Ribela (cross country), Jacqueline Mourão (cross country), Isabel Clark (sowboard), Jonathan Long (esqui alpino) e Maya Harrison (esqui alpino).

Já que por aqui só se pensa em futebol, teríamos no máximo um time de futsal para entrar em ação. Mas, se nossos atletas decidissem fazer uma partida contra a delegação de cartolas brasileiros presentes em Vancouver, tomariam de goleada. 

O COB anunciou hoje que 39 pessoas estarão na cidade canadense para acompanhar a organização dos Jogos de Inverno. Não, você não leu errado. São 18 profissionais que trabalham no Rio 2016 e outros 21 (!!!!!!) representantes de município, estado e governo federal!

"O programa de Observadores é uma importante oportunidade de integração com outros comitês organizadores. A experiência de realizar os Jogos Olímpicos é única em todos os setores", disse Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB e do Comitê Organizador do Rio-2016, para justificar a ida dessa gentaiada toda para o Canadá.

Sem dúvida que "a experiência de realizar os Jogos Olímpicos é única". Mas existe uma brutal diferença entre Jogos Olímpicos de Inverno e Jogos Olímpicos de Verão. A começar pelas modalidades praticadas. Não será útil, em NENHUMA HIPÓTESE, saber como organizar uma etapa do cross country, ou de snowboard. Melhor seria mandar essa turma estudar gestão de eventos esportivos na Universidade que tem a chancela do Comitê Olímpico Internacional. Aprender com quem está gerenciando Londres-2012. Ou ficar em casa.

Sim, conhecimento sempre é bom. Mas o COB e seu presidente Nuzman são mestres em tentar justificar essa necessidade de conhecer para gastar dinheiro onde não precisa.

Enquanto o país não aprender que, sem atleta, não existe esporte e, sem esporte, não existe dirigente esportivo, estaremos fadados a acumular muitas milhas de viagem. E a assistir pela televisão a meia dúzia de abnegados que se tornam, por simples paixão, atletas de alto rendimento. No caso de Vancouver, nem meia dúzia. 

A oportunidade para mudar é agora. Do contrário, continuaremos a depender da verba pública para bancar o esporte no país.

Por Erich Beting às 16h34

Woods segue como esportista número 1 do mundo

A derrocada de Tiger Woods no meio do patrocínio esportivo não foi suficiente para tirá-lo do posto de esportista mais valioso do mundo. Nesta sexta a revista Forbes divulgou a lista das marcas mais valiosas do esporte, dividindo-as em categorias.

Entre os atletas, Woods manteve o posto de mais rico pelos patrocínios que ainda foram mantidos. Com isso, de acordo com a revista, ele continua a ser o atleta mais "importante" do mercado mundial. 

Só que o cenário pode mudar drasticamente em 2011. Woods precisará, de todas as formas, voltar à ativa e só então provar que o comportamento que teve fora dos campos não afetou sua imagem de esportista vitorioso que é. Uma situação, como bem lembra a Forbes, vivida por Kobe Bryant em 2003, quando após ser acusado de estupro, deu a volta por cima e hoje é considerado o sexto atleta mais valioso do mundo. 

Ou, se não quisermos ir tão longe, Woods vive hoje um período muito parecido ao de Ronaldo no começo de 2009. Sem atuar, com escândalos permeando sua vida pessoal, a saída seria mostrar no campo de trabalho o quanto ele é valioso.

Hoje, no Brasil, se houvesse um ranking dos esportistas mais valiosos para o mercado, certamente Ronaldo encabeçaria essa lista.

Por Erich Beting às 13h33

04/02/2010

Itália põe multa para evitar doping

Para evitar o doping, nada como punir o bolso do atleta. Pelo menos essa foi a lógica que o Comitê Olímpico Italiano (Coni) decidiu adotar para os Jogos de Inverno, que começam no próximo dia 12 em Vancouver. 

Se o atleta quiser participar da competição, terá de assinar um contrato com o comitê, concordando em pagar 100 mil euros de multa caso seja flagrado no exame antidoping. Se não aceitar as condições, não vai para o Canadá.

A grana é altíssima e, muito provavelmente, poucos atletas que atuam em modalidades de inverno, mesmo na Itália, conseguiriam pagar por essa multa.

Até hoje, é a alternativa mais interessante para evitar o doping, já que, no final das contas, o objetivo com ele é esse mesmo. Ganhar fama para gerar dinheiro.

Por Erich Beting às 18h33

03/02/2010

Bradesco decide focar "olímpicos"

Em meio à disputa pelo espaço no patrocínio ao esporte, um embate em particular chama a atenção. Os bancos, talvez as empresas com maior fôlego de investimento no país na atualidade, tentam de todas as formas achar o seu espaço dentro das modalidades esportivas.

E, com o futebol dominado pelo Itaú (patrocínio à seleção brasileira e às transmissões da Globo na TV), o Bradesco, seu maior rival, encontrou um escape para não ficar por fora do esporte. 

Os dois primeiros acordos já foram selados. O aporte, via Lei de Incentivo, à CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos). E um contrato, ainda a ser anunciado, com a CBJ (Confederação Brasileira de Judô). O primeiro vai até os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, enquanto que o apoio ao judô, a princípio, é até os Jogos de Londres-2012.

Graças à realização dos Jogos Olímpicos de 2016, o banco fundado por Amador Aguiar decidiu voltar seus investimentos para as modalidades que farão parte do evento no Rio de Janeiro. Apenas em 2011 que o COB deve anunciar seus parceiros comerciais até 2016.

Não será de se estranhar ver o Bradesco investindo milhões para assegurar o seu espaço no cada vez mais valioso mercado esportivo.

Por Erich Beting às 19h41

02/02/2010

Palmeiras e Unimed vão além da exposição

Hoje pela manhã foram revelados os detalhes do acordo de patrocínio entre Palmeiras e Unimed. E, se puxei a orelha por aqui antes por dizer que o contrato estava mais calcado na exposição da marca do que nas ações de marketing, agora tenho de dar o braço a torcer.

Em entrevista à Máquina do Esporte, Rafael Moliterno Neto, diretor de planejamento e negócios da Unimed Seguros, disse que o patrocínio ao clube tem como objetivo aumentar a participação da empresa no mercado. E NÃO APENAS PELA EXPOSIÇÃO DE MARCA!!!!

A ideia é vender, de fato, planos exclusivos para o torcedor palmeirense. Isso aumentaria a participação da Unimed Seguros no concorrido mercado de seguros para pessoa física. É uma forma de aumentar a participação de mercado da empresa via parceria com um clube.

O principal objetivo da parceria, porém, continua a ser a exposição de marca no uniforme do treinador palmeirense. Para o negócio dar certo e gerar vendas para a Unimed, porém, o Palmeiras precisa mostrar que sabe quem é seu torcedor para a empresa. Ou seja, tem de ter contato com esse torcedor, saber e-mail, endereço, renda mensal, etc. Para o bem do futebol brasileiro como um todo, seria ótimo se o clube tivesse esses dados disponíveis.

Por Erich Beting às 18h20

Cabañas e a “interatividade” do torcedor

O caso é o extremo a que se pode chegar, mas é também emblemático para se pensar um pouco mais sobre a tal “interatividade” que tomou conta da mídia desde que se revolucionou a relação das pessoas com os meios de comunicação.

O tiro dado por um torcedor mexicano na cabeça do meia Cabañas, aparentemente por um desentendimento pela performance do paraguaio dentro de campo, revela um pouco mais sobre a relação cada vez mais bélica entre as pessoas. E que, a cada dia que passa, se expressa nas ferramentas de interatividade que são liberadas para o torcedor na mídia em geral.

Não, longe de ser contra essa possibilidade de dar “voz” ao consumidor da mídia. Pelo contrário. É fundamental para o desenvolvimento da mídia nos dias atuais colocar o seu cliente na condição de gerador do próprio conteúdo.

Só que a pergunta que não se cala, ainda mais quando acontecem casos como o de Cabañas, é uma só: o consumidor está preparado para essa interatividade?

À exceção de alguns fóruns específicos, geralmente o que se vê por aí é uma agressão aparentemente sem fim de quem tem direito a opinar sobre um determinado assunto. O colunista não falou o que se esperava? É porque ele conspira contra o seu time. O tema não lhe diz respeito? É porque o autor é um “chato”, “vendido”, “desinformado”. O torcedor não se conforma com um atleta ou dirigente, e dá-lhe críticas contra a sua honra, sua família, etc.

O pior é que essa agressividade do torcedor, aparentemente, não tem se resumido a veículos em que ele pode se “esconder” sob o anonimato, com pseudônimos, e-mails falsos e afins.

O que era para ser a era em que as pessoas teriam um acesso muito maior ao debate, à troca de ideias, à democratização no consumo da informação tem, infelizmente, revelado o lado mais triste de toda essa história.

E o caso de Cabañas é uma espécie de personificação disso. Em vez de argumentar, de tentar entender a mensagem, de tolerar aquele que erra, ou que simplesmente pensa diferente de você, a pessoa toma a via da agressão. Não tolera o erro, o diferente, o que lhe decepciona.

Não é preciso dar um tiro na cabeça de alguém para que ocorra um crime. É hora de começar a se pensar, mundialmente, numa forma de criminalizar a agressão, a injúria, a difamação e qualquer coisa do gênero também nos fóruns de discussão via web. Só assim, provavelmente, para que as pessoas tenham mais coerência na hora de opinar.

Liberdade de expressão não significa liberdade para agressão.

*Coluna publicada originalmente na Universidade do Futebol

Por Erich Beting às 12h37

01/02/2010

Inter, Grêmio, Polar e o marketing bem feito

Taí uma ação diferente que envolveu o clássico entre Inter e Grêmio no último final de semana. Não envolve exposição de marca na camisa, apenas o interesse de movimentar o torcedor em torno do clube para o qual ele torce. A marca de cerveja Polar criou uma ação na internet para colorados e tricolores. Uma competição virtual, em que o torcedor clica no time que torce (leia a matéria na Máquina do Esporte).

Quanto mais cliques forem dados para um clube, maior a receita que ele terá para receber depois. A Polar dividirá, ao todo, R$ 100 mil entre os dois clubes, conforme a proporção dos cliques. Receita absolutamente fácil para entrar nos cofres de cada um dos times, que no final do ano ajudam, e muito, a fechar as contas. Em troca, a Polar consegue gerar uma audiência enorme para o seu site, além de exigir o cadastro de cada torcedor que participar. Ou seja, passa a ter acesso a milhares de potenciais clientes. 

Não é coincidência que Inter e Grêmio sejam hoje os dois clubes com os departamentos de marketing mais bem estruturados do futebol brasileiro, com profissionais remunerados tendo liberdade para tomar decisões dentro do clube. O resultado é imediato.

Por Erich Beting às 17h25

De quem são as Olimpíadas?

A pergunta é recorrente. E voltou à tona nesta semana, após polêmica que chegou à mídia, mas que já circulava no meio acadêmico um pouco antes. Afinal, os Jogos Olímpicos têm um dono? E esse dono, o que pode fazer para preservar seus direitos?

A professora Kátia Rubio, da Universidade de São Paulo (USP), recebeu uma notificação em que é proibida de permitir a circulação do seu livro "Esporte, Educação e Valores Olímpicos". O autor da carta pedindo o bloqueio da venda dos exemplares foi o Comitê Olímpico Brasileiro (COB). A justificativa dada pelo COB é de que a autora usa indevidamente os termos “olímpico” e “olimpíadas” durante o livro, além de usar os anéis olímpicos sem a autorização do Comitê Olímpico Internacional (COI).

A gritaria começou. O principal motivo é a alegação de que é um absurdo não se permitir o uso até mesmo da palavra “Olimpíadas” e suas variações para uma obra literária. Ainda mais se, a cada momento, vemos os meios de comunicação usarem o termo e não serem repreendidos para tal.

A situação revela um caso peculiar da gestão do esporte no mundo. O forte apelo popular que ele traz faz com que haja aquela sensação de certa “liberdade” em relação aos direitos de veiculação e uso de propriedades que, na verdade, têm um dono.

Desde a década de 80, os Jogos Olímpicos passaram por um processo de fortalecimento para ser o evento esportivo mais valioso do mundo. Hoje, as Olimpíadas são um fenômeno de reunião de pessoas e de empresas patrocinadoras. E isso, sem dúvida, graças ao trabalho feito pelo COI para valorizar a marca dos seus Jogos.

Só que, para atingir isso, o COI adotou uma estratégia absolutamente radical em relação à preservação de seus direitos. A partir da Carta Olímpica, o comitê decidiu que não seria permitida qualquer associação aos Jogos por parte de pessoas e/ou empresas que não fossem parceiras comerciais da entidade. E, desde então, existe essa caçada a qualquer tipo de publicação que use o termo para vender alguma coisa, até mesmo um livro.

Do ponto de vista da construção de marca do COI, a estratégia é correta. Por mais que haja toda a história dos Jogos, formada em sua origem pelos atletas e também pelos torcedores, atualmente é o comitê quem tem de arcar com toda a organização do evento.

Ou seja. As Olimpíadas têm um dono, que é o COI.

Por isso mesmo, toda e qualquer ação que tenha como objetivo se apropriar de algo relacionado aos Jogos Olímpicos têm de passar pelo crivo do comitê, que usa suas entidades filiadas (são mais de 200 comitês locais) para garantir a preservação desses direitos. É, mais ou menos, como a Coca-Cola, que tenta de todas as formas combater o uso indevido de sua marca e de seu nome. A diferença é que a Coca não conseguiu, até hoje, impedir que outras empresas usem o termo “refrigerante de cola”, algo que o COI obteve com os derivativos de Jogos Olímpicos (Olimpíadas, olímpico, etc.).

Deixar passar algo assim não é algo que o COI costuma fazer. E, atualmente, a coisa fica ainda mais séria aqui no Brasil por dois motivos.

O primeiro, claro, é a realização dos Jogos em 2016. Para dar mais segurança ao comitê internacional de que o país está preparado, o COB com essa atitude mostra que está atento a qualquer coisa que se faça “contra” a preservação da pureza das Olimpíadas.

O outro motivo, também evidente, é financeiro. Desde os Jogos Pan-Americanos de 2007 que o COB criou uma editora para lançamento de livros cujo tema é os esportes olímpicos. Ou seja: um livro que debata Olimpíadas sem o seu selo é dinheiro perdido...

Caberá à Justiça dizer o que pode ou não pode. Mundialmente, a causa é sempre dada em favor do COI, com raras exceções. Como o Brasil já aprovou, no ano passado, diversas leis para proteger os Jogos Olímpicos e o COI até 2016, o caso poderá significar uma quebra de barreiras na literatura sobre Olimpíadas no país.

Por Erich Beting às 13h36

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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