Blog do Erich Beting

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27/02/2010

Portsmouth revela o lado ruim do futebol como negócio

Na Inglaterra, o assunto tem dominado o noticiário tanto quanto o confronto entre Terry e Bridge, ocorrido na tarde deste sábado aqui em Londres. A preocupação envolve torcedores, dirigentes e a imprensa esportiva. Afinal, o que será do futebol inglês com a falência do Portsmouth? O que mais intriga os ingleses é que a sua milionária liga de futebol assiste passivamente ao fim de uma equipe, sem ao menos se esforçar para tentar evitar esse triste fim.

Por aqui, a semana foi recheada de notícias sobre o Portsmouth. Jornalista da BBC à frente da sede do clube entrevistando os tristonhos torcedores, perguntando-se como o Pompey, como é carinhosamente chamado o clube, pode chegar a essa situação. Detalhe: a matéria da falência do clube tem sido a primeira nos principais noticiários do país.

Mas o que quase nenhum jornalista britânico discute é que o caso do Portsmouth revela a essência do novo status do futebol inglês. Na essência, a Inglaterra vive hoje algo similar ao que os Estados Unidos assiste em suas ligas. Os clubes de futebol do país são empresas, com donos, que buscam ter lucro com o negócio que pode vir a ser um clube de futebol. Os donos dos clubes objetivam ganhar dinheiro com esse negócio. Mais do que ser campeão, geralmente o que vale é ficar com uma boa grana ao final de um ano.

O erro do Portsmouth foi, exatamente, ter muita ambição há cerca de três anos. O clube investiu o que não tinha, e o time foi campeão da FA Cup, a Copa da Inglaterra, na temporada de 2008. O título, porém, é o que provavelmente vai custar hoje a existência do clube no futuro. Ao investir muito dinheiro em busca do sonho de uma conquista esportiva, o Portsmouth perdeu o fio da meada.

Em outras palavras, deixou de ser uma empresa lucrativa. E isso, na atual conjuntura do futebol inglês, significa a morte do clube, independentemente de ele ter ou não uma torcida.

O futebol-negócio atingiu seu mais alto nível na Inglaterra. Como excelente resultado disso, vemos times cada vez mais competitivos, estádios cada vez mais lotados, espetáculos cada vez mais bonitos. Só que tudo tem o seu lado ruim. E, no caso do Portsmouth, é essa transformação do esporte como negócio que causa pesadelo para seus torcedores.

Quebrado, o clube acaba de ser punido, perder nove pontos na Liga Inglesa e praticamente ser rebaixado para a Segunda Divisão. Com isso, seus donos provavelmente vão desistir desse "negócio". E, aí, restam duas alternativas. Fechar as portas ou encontrar um milionário disposto a investir dinheiro a fundo perdido para, quem sabe, lá na frente colher os lucros de um time que gere dinheiro e, quem sabe, ganhe títulos.

Esse é o lado triste do esporte como negócio. Não importa a história do time (o Portsmouth, por exemplo, foi fundado em 1898). Se ele não for lucrativo, o futuro é o seu fim. 

Por Erich Beting às 22h08

25/02/2010

O Brasil ajuda a Nike a vender. A China, a faturar

O crescimento das marcas esportivas está calcado, como quase todo crescimento de empresas nos últimos anos, nos mercados emergentes. Brasil e China, geralmente, ocupam posição de destaque em meio a esse cenário, muitas vezes acompanhados da Índia. 

Mas, em Londres, durante o seminário feito pela Nike para apresentar as camisas de suas nove seleções que estarão na Copa do Mundo da África do Sul, ficou claro que, para a multinacional, Brasil e China têm funções absolutamente distintas na estratégia de crescimento da companhia no mercado do futebol.

O Brasil é o carro-chefe da Nike. É o "abre alas" da companhia em tudo o que diz respeito à comunicação sobre futebol que a empresa faz pelo mundo todo. Basta lembrar o passado de desenvolvimento de campanhas publicitárias mundiais. Sempre um brasileiro esteve envolvido nela. Já a China é responsável pelo salto de vendas da empresa nos últimos anos.

E isso coloca os dois países no centro da estratégia global da Nike para faturar no ano de Copa do Mundo.

No seminário preparado para mais de 300 jornalistas em Londres, figuras importantes da companhia americana estiveram presentes. Entre elas o presidente Mark Parker (que não é figura fácil entre os veículos de imprensa) e a estrela Cristiano Ronaldo, talvez a maior bandeira da Nike neste ano de Copa. Ao mesmo tempo, entre as seleções patrocinadas, o Brasil foi quem norteou todas as apresentações nos dois dias de encontro com a mídia. 

A camisa da seleção foi a primeira a ser apresentada. O uniforme que aparecia na apresentação contando sobre a história da confecção da camisa era o brasileiro. Até mesmo o brinde ao final do evento foi a camisa amarela do time nacional, produto que parece "enfeitiçar" o estrangeiro, especialmente aqueles vindos do Oriente.

Mas, se o Brasil é artigo para fazer da Nike um objeto de desejo, a China claramente é o objeto de desejo da cobiçada marca americana.

Com mais de 300 jornalistas de dezenas de países, Cristiano Ronaldo e Mark Parker deram mínimas entrevistas exclusivas. O único veículo que teve a possibilidade de entrevistar exclusivamente a ambos, numa sala reservada, foi a CCTV, emissora estatal chinesa. Tudo para que o público chinês tenha ainda mais contato com as grandes estrelas da Nike.

A distinção ficou clara. Enquanto o Brasil é um produto para ajudar a vender, a China é o país que vai ajudar a Nike a faturar cada vez mais. Não sem razão o Brasil, que desde 1996 conta com forte presença da empresa americana no país por meio dos patrocínios ao futebol, ainda não viu, de fato, a força comercial da Nike invadir sua praia. Com a Copa de 2014 a caminho e sem a crise dar tanto a sua cara por terras brasileiras, quem sabe em breve o Brasil será invadido de vez pela empresa.

Essa é cada vez mais a aposta desta nova década no mercado esportivo.

Por Erich Beting às 22h29

Valeu, doutor Marcilio!

Acabo de saber que morreu hoje, na querida Florianópolis, como ele sempre fazia questão de enfatizar, o advogado Marcílio Krieger. Figura importante do direito desportivo nacional, doutor Marcílio era também uma das fontes mais solícitas com as quais convivi em dez anos de profissão.

Sempre antenado, preparado para atender à imprensa, didático em cada entrevista (ou aula de direito, como seria mais correto dizer toda vez que falava com ele). Um cara que dedicou parte do seu trabalho em melhorar a situação jurídica do esporte brasileiro, sabendo que isso é fundamental para melhorar a condições de todos que vivem do esporte.

Num meio em que muitos advogam em causa própria, doutor Marcílio sempre procurou mostrar o lado correto da informação jurídica, sem pender a balança para qualquer lado.

Valeu, doutor Marcílio!

Por Erich Beting às 16h26

Cristiano Ronaldo, o marketing man

Cristiano Ronaldo foi, durante muito tempo, injustamente acusado de fazer mais marketing do que de fato jogar bola. Não que ser um marqueteiro seja ruim, como já expliquei aqui. Mas, sem dúvida, prometer algo que não é talvez fosse um problema do atacante português há alguns anos.

Na Copa do Mundo passada, Cristiano Ronaldo teve de aguentar a torcida alemã vaiando-o durante boa parte dos jogos. Brutalmente caçado nas oitavas-de-final contra a Holanda, jogou o restante da Copa baleado, e foi bem. Mas, mesmo assim, foi considerado "marqueteiro", "mascarado", um "falso craque".

Hoje, na Inglaterra, Ronaldo foi a estrela da apresentação do projeto da Nike para 2010, ano de Copa do Mundo. No dia em que a empresa anuncia ter se tornado a número 1 do futebol, batendo a até então soberana Adidas (leia como acabou o reinado de 60 anos da marca alemã aqui), Cristiano Ronaldo deu um show a parte de marketing em entrevista para cerca de 300 jornalistas na cidade de Londres.

"Graças a minha chuteira consigo ser tão rápido", brincou o jogador português em meio às perguntas sobre seu estilo de jogo, enfatizando o motivo para estar presente ao evento (entre outras coisas, a Nike reuniu a imprensa de todo o mundo para apresentar a Mercurial Vapor que será usada pelos atletas patrocinados na Copa da África do Sul).

Esquivando-se de perguntas mais "complexas", como o caso envolvendo Terry e Bridge, Ronaldo ainda soube não causar quaisquer rusgas com declarações polêmicas.

"O que acha de José Mourinho?", perguntou em português, um compatriota da imprensa, que não tinha sido selecionado para responder às poucas perguntas abertas à imprensa.

"É muito bom. É português, então é muito bom", respondeu o jogador, que em seguida justificou a chance de ser multado se não comparecesse ao treino do Real Madrid no dia seguinte para a pressa em ir embora.

E, por fim, a resposta mais emblemática, sobre seu estilo de jogo, feita pelo mestre de cerimônias do evento.

"Para mim, futebol é entretenimento. Eu jogo para proporcionar entretenimento às pessoas. Então eu sempre penso em fazer algo bonito".

De fato, Cristiano Ronaldo esteve em Londres presente num show. Mas a cada dia que passa, ele mostra saber dominar ainda mais o show que virou o futebol. Seja jogando para a torcida ou para a imprensa, o português demonstra estar afinado para sair sempre bem de uma dividida.


Por Erich Beting às 23h47

22/02/2010

A banalização das camisas de futebol

Para quem quer ler um pouco mais sobre o quanto é ruim, para a indústria do futebol, o patrocínio de oportunidade nos times grandes, recomendo a leitura do artigo de Marcus Duarte, executivo de marketing com passagens por Vitória, Flamengo e Vasco.

Duarte escreveu um artigo para a Máquina do Esporte mostrando de que forma essa subvalorização das camisas prejudica o torcedor e, consequentemente, toda a cadeia produtiva da bola.

Para ler o texto, basta clicar aqui.

Por Erich Beting às 17h28

Nike cria “saga” para a camisa da seleção

A Nike decidiu criar uma saga para contar a história da camisa da seleção brasileira. Mais uma vez, a aposta da empresa é abusar do marketing viral para divulgar a nova camisa. É assim desde as famosas bolas na trave de Ronaldinho Gaúcho pré-Copa do Mundo de 2006.

E, agora, a novidade é que a empresa resolveu fazer uma sequência para lançar as camisas azul e amarela do time nacional. O modelo azul, apresentado durante o Carnaval, já conta com um vídeo protagonizado por Maicon, Robinho e Luís Fabiano (veja abaixo).

Já a camisa amarela também terá uma história, ainda guardada a sete chaves pela empresa, e que deverá ser apresentada esta semana em Londres, na Inglaterra. Sim, é isso aí. O lançamento da camisa do Brasil na Copa do Mundo acontecerá na cidade que tem abrigado os jogos amistosos da seleção nos últimos tempos.

Algumas razões para isso. Além do Brasil, os uniformes das demais seleções patrocinadas pela empresa serão mostrados para jornalistas de todo o mundo. A proximidade e centralidade da Europa, principal mercado para a Nike quando o tema é futebol, pesaram a favor disso.

O Brasil, também, é o principal “produto” da Nike. E, ao levar o time nacional para a Europa, aumenta a repercussão da empresa em todo o mundo para o uniforme amarelo.

Por Erich Beting às 16h26

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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