Blog do Erich Beting

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13/03/2010

Indy topa (quase) tudo pelo espetáculo

Apenas a Fórmula Indy toparia uma loucura como fazer uma prova num circuito novo, de rua, entregue no dia do evento aos pilotos e numa complexa cidade como a de São Paulo. Qualquer outra categoria de automobilismo possivelmente recusaria-se a fazer uma prova nas condições da São Paulo Indy 300.

Antes de os carros entrarem na pista montada em meio ao sambódromo do Anhembi, pilotos e organizadores apontavam a imprevisibilidade como mais um grande aperitivo para o que seria o grande espetáculo do final de semana. Com o cancelamento do treino de classificação e sua mudança para domingo, para alguns ajustes na pista, o discurso mudou. A lembrança constante dos poucos mais de 20 dias para colocar tudo em "ordem" para a prova, a reclamação de que os pilotos não participaram da confecção do traçado, o debate sobre a ausência de testes antes de os carros começarem a rodar.

A cultura americana que faz a Indy existir é a grande responsável pela "loucura" de se fazer a prova no Brasil. O americano entende que, no esporte, é preciso dar espetáculo para o público. Nas corridas, o grande atrativo para o torcedor é ter pela frente uma prova imprevisível, com ferrenhos pegas entre os pilotos, freadas bruscas, marca de pneu no chão, quem sabe até uma ou outra colisão.

A Indy traz a síntese desse conceito em seu formato. Os carros têm o mesmo chassi e são equipados com os mesmos motores. Tudo para assegurar que é o piloto, e não a máquina, o grande responsável pela diferença de desempenho do carro. Os pilotos não precisam necessariamente participar de todas as provas, o que leva algumas corridas a terem mais carro do que realmente seria o "aceitável" numa competição normal.

Só que a Indy teve de pensar melhor antes de aceitar as adversidades da pista no Anhembi. Afinal, no esporte, o espetáculo só consegue ser garantido se houver atleta. E um claro risco da SP Indy 300 era, exatamente, não ter nenhum piloto ao término da prova. Ou, pior ainda, a chance de um terrível acidente era cada vez mais nítida sem as mudanças na pista, especialmente no trecho de concreto do sambódromo.

O espetáculo é a essência da competição esportiva. Mas nem tudo se justifica.

Por Erich Beting às 20h02

12/03/2010

A escolha de Cesar

Acabo de ler no UOL Esporte matéria sobre o quanto Cielo e Corinthians podem se beneficiar do acordo que está próximo de sair. Não, a questão aqui não é grana, mas potencial de crescimento das marcas, especialmente a do nadador recordista mundial dos 50 e 100m livre ao se juntar ao clube mais popular de São Paulo e segundo mais popular do país.

Alguns pontos tem de ser considerados.

O Corinthians não tem tradição na natação. Isso pode fazer com que Cielo sofra pela falta de interesse do clube em investir na modalidade. Só que, ao ter o melhor do mundo nadando em suas piscinas, mesmo que esporadicamente, o Corinthians provavelmente vai querer investir e revelar novos talentos.

Carregando a "bandeira" corintiana, por sua vez, Cielo deve ganhar muita popularidade. Mais do que já tem, o que lhe abre o caminho para novos patrocínios e, especialmente, para ser garoto-propaganda de marcas, um dos maiores "ganha-pão" de atletas de esportes individuais.

O maior entrave, porém, está na rentabilidade do negócio. Para Cielo, não há dúvidas, o acordo envolve dinheiro. Mais do que ele ganhava do Pinheiros, onde foi praticamente uma "prata da casa" e não teve o devido reconhecimento financeiro pós-conquistas. Para agravar a situação com o antigo clube, Cielo viu chegar, pouco após o ouro olímpico, dois grandes projetos milionários no Pinheiros, com a Sky, para o vôlei e o basquete. Faltou tato à diretoria pinheirense com o seu grande campeão.

Só que, para o Corinthians, é questionável até que ponto pode render esse acordo com Cielo além de uma exposição "poliesportiva" para o clube. Sem tradição no esporte, o Timão já deixou para trás projetos que não foram rentáveis e que demandavam investimentos. Foi assim, por exemplo, com seu time de futebol feminino, criado em 2008 e que, no ano passado, foi sufocado pelo Santos de Marta, a ponto de deixar Cristiane ir para o rival e fechar as portas.

Para que tenha lucro financeiro com Cielo, o Corinthians precisa de um projeto de longo prazo. Sem revelar atletas, o clube usa a grana que sobra do futebol para bancar esportistas com grandes chances de ouro olímpico (Poliana Okimoto, da maratona aquática, é outra que migrou do Pinheiros para o Corinthians). Se, em 2012, os resultados aparecerem, o Timão colhe os louros de uma fama "importada", a exemplo de países que contratam atletas de outras nacionalidades para lhes defender em Jogos Olímpicos. 

A expectativa, porém, é de que não aconteça com o Corinthians o que houve com o Vasco em 2000, quando o grande "campeão" das Olimpíadas foi o grande vilão da maioria das modalidades ao fechar as torneiras e abandonar os atletas pós-conquista. O mercado já amadureceu o suficiente para que isso não aconteça. Mas é sempre um alerta quando um clube tradicionalmente do futebol decide expandir os seus tentáculos para outras modalidades...

Por Erich Beting às 11h20

11/03/2010

Quanto vale o show?

O Santos colocou à venda, a partir desta quinta-feira, os ingressos para o jogo contra o Palmeiras, no próximo domingo. Mais uma vez, fica aquela dúvida na cabeça do torcedor. Será que vale ir a esse jogo? Pelo badaladíssimo time do Peixe, sem dúvida que vale. Por se tratar de um clássico, também. E, por ser um jogo do líder do Campeonato Paulista, sem dúvidas.

Mas quanto vale esse show?

Para a diretoria santista, que ficará com 100% da receita de bilheteria da partida, o ingresso mais barato custa R$ 30. Mas ele só vale para estudante e/ou aposentados, que têm direito ao pagamento de metade do valor da entrada. O torcedor "comum", que representa a maior fatia do consumidor de um jogo de futebol, tem de desembolsar R$ 60 para ficar na arquibancada. O ingresso mais caro, para o camarote, sai por módicos R$ 300.

A tática de inflacionar o preço do ingresso, ainda mais depois de um 10 a 0 aplicado pelo time, pode num primeiro momento parecer a coisa mais lógica a se fazer. Mas a estratégia é absurda. E um tiro no pé no que diz respeito à tentativa de geração de receita com bilheteria.

Não é a qualidade do jogo que deve regular o valor do ingresso para uma partida, mas sim a qualidade do local onde o jogo acontece. Um estádio de difícil acesso, com nenhum conforto, nenhuma segurança e sem lugar marcado não pode ter em 30 reais o preço mínimo para acessá-lo.

O que parece estar cada vez mais claro na cabeça dos dirigentes brasileiros é que o torcedor não está preocupado com o conforto, mas com a qualidade do jogo que verá. Isso é parcialmente verdade. Obviamente que qualquer um entende que precisa pagar um pouco a mais para ver um "show" melhor. Um show da Madonna não pode ter o mesmo preço daquele de uma banda que está em início de carreira.

Só que de nada adianta aumentar o preço do ingresso se o desconforto continuar. Um ingresso mais caro pressupõe que o público que consumirá o espetáculo tenha um melhor poder aquisitivo. E esse tipo de público tem, também, um maior nível de exigência em relação a diversas coisas, entre elas a segurança e, especialmente, o conforto da ida a um jogo de futebol. 

No Brasil, são dois ou três estádios que têm condições de oferecer um pouco mais de conforto para o seu torcedor. Segurança, quase nenhum. 

Não teria sido mais lógico para a diretoria santista manter o preço do ingresso no valor que estava e levar a realização do jogo com o Palmeiras para o Pacaembu? Muito provavelmente o fato de o estádio paulistano ter o dobro da capacidade da Vila Belmiro já resultaria numa compensação da arrecadação de bilheteria.

Enquanto a leva de novos estádios não surge, essa parece ser a solução mais coerente para o público. O preço do show não varia só conforme a banda. Tem de oscilar, também, conforme a qualidade do serviço que é oferecido. De que adianta cobrar preço de primeira classe se o torcedor continua a ser tratado como animal de carga?

Por Erich Beting às 12h35

10/03/2010

Um mico como mascote em 2014!!!

As tratativas ainda são incipientes. Já se falou em Pelezinho (personagem de Mauricio de Sousa) e Zé Carioca (de Walt Disney) para serem as mascotes da Copa do Mundo no Brasil, em 2014. Mas, se depender do desempenho das vendas das mascotes no Mundial de 2006 e, agora, no da África do Sul, poderíamos assumir o mico como personagem oficial da Copa brasileira.

Depois de o Goleo levar à falência a empresa Nici, que fez o licenciamento da mascote da Copa de 2006 e colocou-o à venda na Alemanha, agora é a vez de Zakumi, o personagem que ilustra o Mundial da África de 2010 dar dor de cabeça a seu fabricante. A empresa chinesa Shanghai Fashion Plastic Products encerrou a produção de bonecos do personagem, depois de uma denúncia de péssimas condições de trabalho oferecidas a seus empregados.

Desde a Copa de 90, quando o boneco Ciao foi criado, que a mascote das Copas não causa espanto e furor de compras nas pessoas. No Brasil, os Jogos Pan-Americanos do Rio em 2007 foram um sucesso no quesito mascote. O boneco Cauê esgotou-se nas lojas, sendo uma das grandes sacadas do plano comercial do evento.

Mas ainda acho que o mico pode fazer mais sucesso. Talvez até o mico-leão-dourado, animal típico de nossa fauna e que está em risco de extinção. Pelo menos a piada, em caso de mantida a tradição das mascotes de Copa, está garantida...

Por Erich Beting às 17h16

09/03/2010

Invadindo a seara alheia

O Santos deverá ampliar o acordo com a Seara. Da manga da camisa, a marca de alimentos pode saltar para o peito do uniforme santista (leia a matéria completa aqui). A entrada de um novo patrocinador no futebol revela um movimento curioso do mercado de patrocínio. Onde o concorrente está, a outra marca tem de estar também.

O acerto entre Seara e Santos provavelmente não ocorreria se estivéssemos em fevereiro de 2009. À época, não havia nenhuma empresa de alimentos patrocinando o futebol. Em março, a Batavo acertou com o Corinthians e, no ano que passou, colheu os frutos da aposta no time de Ronaldo, tanto que neste ano optou em patrocinar o Flamengo para manter praticamente o mesmo valor a ser investido no futebol.

Com uma de suas grandes concorrentes no mercado de patrocínio esportivo, a Seara sentiu-se impelida a também apoiar o futebol. Foi pelo mesmo motivo que a Bozzano, no ano passado, entrou nas mangas de Corinthians e Flamengo. Com a Gillette no patrocínio da seleção brasileira, a empresa foi levada para o futebol. O resultado foi o incremento do aporte neste ano, com a Hypermarcas "invadindo" a camisa do Timão.

No final das contas, o esporte agradece que novas empresas decidam investir cada vez mais. Mas a farra de se colocar milhões em patrocínio está, provavelmente, com os dias contados. Em breve, esses milhões terão de ser justificados pelos executivos que apostaram no esporte. E, aí, o esporte começará a separar quem de fato quer se beneficiar dele por meio do patrocínio daquele que está apenas entrando num terreno por força do concorrente.

Por Erich Beting às 17h17

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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