Blog do Erich Beting

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28/05/2010

O problema é a bola ou a pauta?

E, mais uma vez, uma bola pré-início de uma grande competição começa a dar o que falar... "É leve", "É ruim", "É pesada", "É amarela", "É azul". As justificativas podem variar, mas via de regra sempre vai ter alguém falando mal da bola.

E o problema, quase sempre, não é a bola. Mas a pauta. Com o big brother que se transformou a seleção brasileira, são 24h de programação em cima do time nacional. Uma equipe que, particularmente, é fechada a sete chaves pelo técnico Dunga, o que dificulta ainda mais a imprensa para preencher o espaço com notícia. E, aí, é preciso ver se tem alguma novidade. 

Como é o primeiro treino da seleção e não há mais polêmicas sobre Kaká e Luís Fabiano, o grupo está fechado, etc., a pauta vira o primeiro contato com a bola. E, aí, sempre sobra para o goleiro ter de falar alguma coisa. 

Só que, o que o jornalista raramente deixa claro para o seu leitor, espectador ou ouvinte é o que há por trás da declaração de um atleta. 

Não dá para ser isento quando se comenta sobre a bola da Copa. Praticamente todos os jogadores que estão na África do Sul possuem um contrato pessoal com um fabricante de material esportivo. Júlio César é patrocinado pela Reusch, empresa forte no mercado de luvas de goleiro. Depois do salário na Internazionale, é um de seus maiores rendimentos esse acordo de patrocínio. Dificilmente Júlio elogiaria a bola se não fosse patrocinado pela marca que a produz.

O problema não é falta de ética, não. Imagine o prejuízo que ele teria se pudesse falar bem e se indispusesse com seu patrocinador? Isso sempre acontece. Se perguntassem para Kaká, Grafite e Michel Bastos, não veríamos qualquer crítica à redonda. Os três são os astros da Adidas no time brasileiro.

O mesmo Júlio César declarou na entrevista coletiva de hoje: "se igualarmos na pegada, não tem para ninguém". Seria coincidência que esse é o mote da campanha publicitária da Brahma, que tem o goleiro da seleção como garoto-propaganda?

É, mais ou menos, empresário de jogador usado como fonte de informação. Ele nunca vai criticar um clube para o qual seu atleta pode se transferir e sempre vai valorizar o interesse de qualquer clube, especialmente quando se falam em grandes clubes do exterior. Ou seja, é aquela opinião que, se não for contextualizada, perde o sentido.

A bola é o de menos. A pauta é que precisa mudar. Ou, então, pelo menos deixar clara qual é a relação atleta-patrocínio que está atrelada ao comentário sobre a bola. A favor ou contra. 

Por Erich Beting às 19h25

26/05/2010

O grande vencedor da parada "técnica" da seleção

A presepada que foi a recepção do presidente Lula ao time brasileiro antes do embarque para a Copa do Mundo se transformou em vitória para uma empresa. Na euforia da mídia de cobrir todos os ângulos da inútil parada em Brasília para pedir a bênção ao presidente do país, a TAM conseguiu um retorno de exposição gigantesco.

O avião da companhia foi filmado de todos os ângulos, além de fotos do embarque do time nacional terem sido reproduzidas em TVs, blogs, sites e afins.

Se há alguém que se deu bem nessa história, sem dúvida foi a companhia aérea. Mérito de uma estratégia de marketing bem armada, com o avião contendo as frases de incentivo ao time nacional na fuselagem. Algo que não é novidade, mas que virou motivo para que a mídia falasse de alguma coisa que não o Dunga sem nem tirar a mão do bolso para cumprimentar o presidente da República, numa evidente mostra de que foi contra a politicagem armada pela cúpula da CBF.

Lula bem que tentou pegar carona no canhão de mídia que é a seleção brasileira. Mas quem é o responsável por levar os jogadores para a África acabou se dando melhor ainda.

Por Erich Beting às 19h14

25/05/2010

Do circo ao cerco

Dunga não gostou da festa em Weggis, que despreparou a seleção brasileira para a Copa do Mundo de 2006. O circo era tamanho que tirou o foco dos atletas daquilo que era mais importante. Dunga era, então, comentarista da Copa pelo BandSports.

Agora, como técnico da seleção, Dunga transformou o circo de 2006 num estado de cerco. Nada pode acontecer sem passar sob o seu olhar. E isso tem as suas consequências.

Para os patrocinadores, a oportunidade perdida de usar a concentração brasileira para fazer ações de relacionamento é ruim. Sem acesso ao local de treino da seleção, perde-se a chance de fazer um agrado a um cliente, a tirar um melhor proveito de um evento como a Copa do Mundo. 

Para os torcedores, o distanciamento da seleção serve para dar mais um motivo para a mídia descer a lenha no isolamento do time nacional.

No final das contas, só aumenta o stress no relacionamento entre seleção, mídia, torcida e patrocinadores.

Por Erich Beting às 15h22

24/05/2010

Marketing não é vender patrocínio*

Sábado, no Palestra Itália, mais de 18 mil torcedores foram torcer pelo Palmeiras contra o Grêmio. Mais do que a empolgação pelo time, o que moveu essa massa ao estádio foi a notícia de que aquele seria o último jogo oficial do Palmeiras em sua antiga casa, construída há mais de meio século.

Mas parece que só a imprensa e a torcida deram bola para a informação. Em meio a uma guerra de bastidores, a diretoria alviverde preferiu dissolver a estratégia previamente programada para o “jogo final”.

Em campo, a festa foi só dos jogadores. Vitória por 4 a 2, com direito a susto e até um grito de “olé” nos minutos finais. Só por precaução, já que poderia ser o último grito de “olé” no antigo Palestra Itália...

E onde estava o trabalho de marketing do clube? Nenhuma placa alusiva ao jogo, nenhum foguetório programado, nenhuma lembrança para ser comprada na loja oficial depois da partida. Aliás, loja que foi fechada logo que a partida começou, como se uma vitória não fosse incentivar o consumo.

Se o jogo foi de despedida, não há o que comemorar. A diretoria palmeirense se preocupou mais com o momento do time dentro de campo, esquecendo-se do básico: torcedor não é movido pela vitória, mas pela história.

Nem mesmo o ingresso para a partida derradeira continha uma lembrança, algo que fizesse daquele canhoto mais especial do que da até hoje mais feliz das vitórias no Palestra Itália, a final da Libertadores de 1999.

Não ficou nada para registro histórico, a não ser mais um canhoto de ingresso. Que precisará de uma placa ao lado, explicando porque ele é tão especial que merece uma moldura no quarto, na sala, no banheiro, onde quer que seja.

É mais uma chance perdida. E outra mostra da miopia do dirigente esportivo, que confunde marketing com captação de patrocínio, que não vê que a verdadeira função do departamento não é apenas trazer parceiros comerciais, mas mobilizar o torcedor em volta da marca do clube.

Muitas vezes a vida do torcedor foi construída dentro de um estádio de futebol. Foi ali que ele aprendeu a ter algo em comum com o seu pai, foi ali que ele formou o primeiro grupo de amigos, foi ali que ele conheceu namoradas (os) e, quem sabe, a mulher/o homem da vida. Um dos primeiros hábitos da infância de um apaixonado pela bola se constrói dentro de um estádio.

Quando você tem a sensação de que será a última vez que você verá aquele lugar daquele jeito, não dá para não comparecer, não festejar, não se emocionar. O time é o de menos, a fase não importa.

O que não dá para acreditar é que nada foi feito para o torcedor num dia tão especial...

*Coluna publicada originalmente na Universidade do Futebol

Por Erich Beting às 12h38

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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