Blog do Erich Beting

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03/07/2010

3D amplia controle de informação da Fifa

A Copa do Mundo tem um dono. E, cada vez mais, esse dono faz questão de deixar isso bem claro. A Fifa obriga, atualmente, seus parceiros comerciais respeitarem o "naming right" do evento. Qualquer parceiro dela tem de dizer que patrocina a Copa do Mundo Fifa. Aos poucos, a entidade também vai forçando essa regra para as emissoras de TV, a principal financiadora do Mundial.

Com a tecnologia da transmissão em três dimensões, o poder da Fifa sobre o controle da informação será ainda maior. O alto custo para fazer a captação de imagens e sua posterior exibição faz com que apenas o "dono" do evento tenha capacidade de exibir a Copa em 3D.

Tive a oportunidade de assistir hoje a vitória alemã sobre a Argentina num cinema 3D montado no centro de imprensa em Joanesburgo. Imagens espetaculares, que nos leva a ver de uma nova maneira uma partida de futebol. Em alguns instantes, de fato parecia que éramos atores do jogo, não apenas espectadores. A chuva de papel picado do torcedor argentino na hora do hino nacional, foi a senha para entrar num momento nunca antes visto pela maiora das pessoas em transmissão esportiva.

A próxima Copa será disputada no Brasil. Ela deve consolidar o sistema em três dimensões para exibição de jogo, tal qual o Mundial da África do Sul consagrou a alta definição. Só que, ao que tudo indica, só conseguiremos ver as imagens que a Fifa quiser. E isso, para o futuro dos eventos esportivos, é um grande sinal de alerta.

Aos poucos, voltamos à era do controle da informação. O poder da grana se sobrepõe a tudo. E, com isso, a informação é cada vez mais vigiada e controlada. Para o torcedor, é uma maravilha poder assistir a um jogo com a tecnologia de três dimensões. Mas, em troca disso, temos cada vez menos acesso a informações "livres", desprovidas de qualquer manipulação.

Por Erich Beting às 17h19

02/07/2010

A briga das marcas foi para os pés dos jogadores

Desde os anos 90, o duelo entre marcas esportivas sempre teve um capítulo a parte em Copas do Mundo. Grandes financiadoras do esporte, as marcas usam os grandes eventos esportivos para uma espécie de tira-teima entre elas. Ter o atleta vencedor, o time campeão, a bola do jogo, o craque do evento ou qualquer outro elemento de destaque vale como um grande trunfo para uma marca. É só lembrar da revolução causada pela Adidas, em 70, quando criou a primeira bola branca da história, ou da Nike, em 98, quando fez da chuteira prateada de Ronaldo um novo estilo de vida. Ou, mais recentemente, do maiô tecnológico da natação, que alçou a Speedo aos patamares mais elevados do esporte.

Em 2010, na África do Sul, o duelo das marcas foi polarizado entre Nike e Adidas. A força econômica de ambas fez com que as outras marcas fossem "engolidas" nesta Copa do Mundo. E, em vez de brigar pelo time vencedor (a Adidas já garantiu uma seleção na final, enquanto Nike e Puma duelarão na semifinal em que pode estar o Brasil pelo outro posto), as duas maiores concorrentes do mercado levaram para o pé dos jogadores toda a estratégia de marketing na Copa do Mundo.

Inicialmente, a maior sacada da Nike para esta Copa foi criar chuteiras com o mesmo padrão de design para todos os seus atletas. Quem é patrocinado pela marca usa o modelo com as cores roxa e prata, ou algo nessa linha. A padronização da chuteira salta aos olhos na televisão. Não por acaso, segundo os designers da empresa, as cores escolhidas para a chuteira são as que mais aparecem no gramado. O objetivo é chamar a atenção para o pé do atleta, tirando o foco da camisa que ele usa (que pode ser ou não da mesma marca) e até da bola, que com certeza é da concorrente.

Pelo outro lado, a Adidas criou três modelos de chuteiras com cores distintas. E deu a Lionel Messi, seu maior astro antes do início da Copa, um modelo único de chuteira, numa cor roxa, quase preta. Só ele tem aquele modelo. O objetivo é fazer com que o craque, aquele que inspira as pessoas, inspire também as vendas. É a lógica de compra do consumidor. Ele quer a chuteira que seu ídolo usa. E, com isso, a Adidas tenta fazer com que seu maior astro nesta Copa tenha um modelo especial, que reflita a marca em campo e estimule a venda fora dele.

Tudo isso fez com que as duas empresas passassem a olhar os pés de jogadores como trunfos competitivos. E o resultado, curiosamente, é quase igual, pelo menos dentro de campo. Até antes de a bola rolar para Brasil x Holanda, a Adidas somava 52 dos 121 gols marcados na Copa (dois gols foram conta). A Nike tem 51 tentos. Se forem somados também os gols feitos pela Umbro, que foi comprada pela marca americana, as duas grandes rivais empatam com 52 gols. Empate técnico, com estratégias diferentes. Nas lojas, é bem provável que aconteça o mesmo.

Por Erich Beting às 04h59

01/07/2010

Nike tenta fazer do limão uma limonada

A Nike decidiu responder, de forma bem-humorada, às críticas pelo "insucesso" da campanha "Escreva o Futuro". Um comunicado oficial feito pela matriz, em Beaverton (EUA), brinca com o fato de os atletas que estrelam a campanha mundial da empresa terem já sido eliminados da Copa do Mundo.

"Estamos orgulhosos com o sucesso da campanha. É impressionante que, quatro semanas após o lançamento da campanha, as pessoas ainda estejam debatendo e falando sobre ela. Tivemos quase 18 milhões de visitas para nossa campanha no Youtube e isso entreteve e inspirou os fanáticos pelo futebol em todo o mundo. E, quanto a nossos jogadores em destaque, essa é a beleza do jogo e é por isso que o vemos - ele é imprevisível!", diz o comunicado, enviado ao blog pela assessoria da Nike no Brasil.

No final das contas, o marketing "às avessas" tem tido relativo sucesso na Copa da África do Sul. Agora, acontece com a Nike mais ou menos a mesma história da Jabulani. Fala-se mal, mas consome-se bem...

Por Erich Beting às 17h06

Nike passa a reescrever o futuro

O risco de uma campanha publicitária que prevê o futuro é, exatamente, ele não se realizar. Pior que isso, é ele ter um desfecho praticamente oposto ao imaginado. Antes da Copa, a Nike criou uma campanha maravilhosa, com o intuito de "escrever o futuro". Os garotos-propagandas eram craques consagrados do futebol mundial, que poderiam escrever um novo futuro no mundo da bola a partir da competição na África do Sul.

Todos os atletas escalados inicialmente pela campanha já voltaram a escrever o futuro dentro de suas casas. Agora, a própria Nike trata de reescrever a história. Aqui em Johanesburgo, a loja da fabricante americana no Mandela Square tirou ontem pela manhã Cristiano Ronaldo da vitrine e agora estampa Robinho como principal chamariz do estabelecimento. Da mesma forma, o prédio da empresa no centro da cidade já "eliminou" os astros que voltaram para casa.

Esse é o risco da campanha "vidente". Sem a previsão se concretizar, o torcedor brinca com o erro. Só que a própria campanha mostra que já havia uma espécie de "plano B". O projeto vai além da campanha de Copa, mas conta com o mesmo princípio de "escrever o futuro".

Em parceria com a Premier League da Inglaterra, a empresa fará uma grande peneira mundial com jovens. Ao final do processo de seleção, menos de uma dezena será escolhida para treinar na Nike Academy, em Londres. O processo seletivo se encerra na próxima semana. As inscrições são pelo Facebook, na página da empresa. O Brasil terá quatro participantes na seletiva final, que será realizada no exterior.

No final das contas, a combinação do conceito de uma peça publicitária com uma ação de marketing com os jovens alivia a barra, por assim dizer, do erro de vidência da Nike. Mas é provável que, para 2014, os americanos decidam, em vez de escrever o futuro, pensar no presente.

Por Erich Beting às 14h06

30/06/2010

Contrato dá a Globo direito a entrevistas na Copa

A queda de braço entre Dunga e a TV Globo pode sofrer interferência da Fifa. O veto do treinador brasileiro às entrevistas exclusivas durante a disputa da Copa do Mundo pode ser derrubado pela emissora por conta de uma cláusula no contrato de transmissão do Mundial. Nele, a Globo tem direito a entrevistar com exclusividade jogadores do time nacional.

A informação foi passada por um alto executivo da emissora ao blog.

A Globo é uma das maiores parceiras comerciais da Fifa. Sim, a palavra correta é essa. A emissora paga cerca de US$ 180 milhões pelos direitos de transmissão da Copa nas TVs aberta e fechada e na internet, um dos mais altos valores no mundo. O contrato entre entidade e empresa tem de ser benéfico a ambas.

Nesta Copa, a Fifa alçou suas estratégicas de marketing a níveis jamais vistos. Que o diga o sucesso da Jabulani, bola que virou grife muito graças à extensa exibição do objeto nas partidas e entrevistas coletivas pós-jogo aqui na África do Sul. Nada mais natural que, na negociação dos direitos de transmissão, a Fifa inclua algumas cláusulas assegurando direitos a seus parceiros comerciais.

Band, ESPN e Bandsports não possuem esse "benefício" em seus contratos de exibição do Mundial.

O ponto negativo, nessa história toda, é que o dinheiro interfere cada vez mais em tudo o que diz respeito à Copa do Mundo. Até no jornalismo...

Por Erich Beting às 20h24

Fan fest ou fantasma fest?

O maior legado de marketing da Copa da Alemanha foi o Fan Fest. O espaço, concebido para abrigar o torcedor sem ingresso no dia de jogo ou numa cidade que não recebia uma partida do Mundial, foi a grande novidade alemã em 2006.

O sucesso da Copa passada motivou a Fifa a expandir o conceito do Fan Fest para a África do Sul. Num país com alto índice de pobreza, a chave era criar um espaço que abrigasse toda a população local. Além disso, a entidade globalizou o conceito da área para a festa da torcida. Espalhou, em mais sete cidades ao redor do mundo, a Fan Fest.

Só que, dentro da casa da Copa, a Fan Fest virou uma Fantasma Fest. Ainda mais depois da eliminação da África do Sul. Até agora, segundo dados divulgados pela Fifa, foram mais de 3 milhões de pessoas acompanhar o Mundial no Fan Fest. Desses, 1,5 milhão compareceram aos espaços fora da África do Sul, com a liderança em Berlim (Alemanha), que recepcionou mais de 380 mil torcedores.

A outra metade da torcida está na África. E aí é que está o problema. O “melhor” Fan Fest é o de Durban, que recebeu mais de 300 mil pessoas. Em Sandton, bairro nobre e caro da cidade de Johanesburgo foram mais de 150 mil torcedores presentes. Na cidade mais populosa do país, está apenas o terceiro melhor desempenho do Fan Fes Copa.

E, à exceção dos jogos da África do Sul, foi possível conferir que o espaço estava quase sempre vazio. Alguns motivos levam à conclusão de por que os Fan Fests da África não vingaram tanto quanto na Alemanha.

Por aqui, o frio é cortante. Alguns jogos começam com a temperatura próxima de zero grau. Durban, que se vende como “o lugar mais quente da África do Sul em 2010″, não sofre tanto com esse problema.

Outra questão é cultural. O futebol não está enraizado na cultura sul-africana como está na Alemanha, por exemplo. E, com isso, o torcedor não se sente empenhado a comparecer ao Fan Fest para ver um jogo.

O sistema público de transporte falho é outra razão para afastar o torcedor, bem como a segregação racial, ainda existente nas atitudes das pessoas. Ricos e pobres não se misturam, e isso faz com que o Fan Fest vire um lugar para a celebração de uma camada da sociedade menos favorecida financeiramente.

Será que o Brasil estará preparado para receber o torcedor em outros lugares além do Rio de Janeiro em 2014?

Por Erich Beting às 19h15

27/06/2010

O negócio da camisa 2

Brasil de azul e Chile de branco. Ao que tudo indica, será assim que os dois times entrarão em campo na segunda-feira para a disputa da vaga nas quartas-de-final da Copa do Mundo. Esqueça tradição e/ou superstição. O que motiva essa decisão é o negócio.

Nesta Copa do Mundo, nunca as seleções e a própria Fifa estiveram tão bem armadas para o marketing. Desde a restrição do uso de logomarcas das seleções durante os treinos até a colocação da Jabulani e de garrafas de Coca-Cola nas entrevistas coletivas oficiais dos treinadores pré e pós-jogo, tudo faz parte do negócio que se tornou a Copa do Mundo.

E isso se reflete, também, na venda de camisas. Para vender o uniforme de jogo, é preciso usá-lo dentro de campo. Essa lógica fez com que o México vestisse preto contra a amarela seleção da África do Sul, ou que Gana e Estados Unidos usassem seus uniformes "reservas" no jogo de ontem.

Quase nada mais na Copa do Mundo é puro. Há na maioria das vezes uma motivação comercial em torno de diversas ações aparentemente inofensivas de jogadores, árbitros e treinadores. Muitos podem reclamar dessa mercantilização da bola. Mas ela faz parte do show. Porque, convenhamos, hoje a Copa do Mundo é claramente um grande negócio. E os principais atores desse grande show refletem, dentro de campo, o negócio bilionário que ali acontece.

A parte boa dessa história é que o atleta fará de tudo para ganhar pelo seu país, independentemente da estratégia comercial ali envolvida. E, aí, é quando o negócio dá lugar à paixão. Salvando a identidade daquilo que alimenta o esporte.

Por Erich Beting às 08h26

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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