Blog do Erich Beting

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20/08/2010

Neymar, Bellucci e a profissionalização do atleta

Neymar ficará no Santos. Pelo menos por enquanto. O esforço de marketing que o clube fará para contar com o atleta é interessante. Visto como um grande passo por muitos, ainda tenho alguns pontos de interrogação sobre a sustentabilidade do projeto.

Os detalhes não foram todos revelados, mas parece que Neymar, além de receber um alto salário, terá uma linha de produtos vinculada a sua imagem e, ainda, uma propriedade no uniforme santista para negociar. Um plano legal, meio básico para vincular a imagem de um atleta a um clube, sem grandes novidades.

Mas será que Neymar está preparado para colocar em prática essas ideias?

Esse talvez seja o grande confrontamento que o esporte como negócio no Brasil tenha de vivenciar nos próximos anos. A aproximação dos grandes eventos esportivos faz com que as empresas decidam injetar mais dinheiro no esporte e isso, consequentemente, faz com que os atletas tenham potencialmente mais receita do que antes.

Só que, para justificar o investimento de uma grande empresa na imagem de um atleta, é preciso que ele entenda a importância de trabalhar ao lado de seu patrocinador. Daí o questionamento ao futuro do projeto com Neymar.

Ninguém em seu staff está preparado para isso. Recentemente, em evento da Gillette, o atacante do Santos disse que não tinha pelos para se barbear. Seu colega de time, Ganso, disse que não estava acostumado a usar o aparelho, afirmando que utilizava apenas o aparato elétrico, que não é produzido pela marca.

Mostra do caráter puro de ambos, mas que demonstra também uma absoluta falta de preparo para se comportar num evento comercial, algo que será cada vez mais corriqueiro para ambos.

E, ampliando a discussão, percebe-se que o problema é bem mais embaixo. Não há atleta hoje, entre as jovens promessas do esporte brasileiro, apto a aguentar o tranco de conciliar os compromissos profissionais com a vida de esportista.

Thomaz Bellucci, o maior nome do tênis desde Gustavo Kuerten, deu a prova disso ao simplesmente abandonar o uniforme da Topper e vestir Adidas na partida que custou sua participação dentro do Masters 1000 de Cincinnati. Agora, corre o risco de ser processado pelo antigo parceiro comercial.

Neymar continuar pelos gramados brasileiros é um bom sinal para o esporte no país. Só que, para isso, é preciso que os atletas amadureçam. Os exemplos recentes mostram que há um longo caminho para ser trilhado pelos marqueteiros na gestão da imagem dos atletas. Frutos do crescimento do esporte como negócio no Brasil.

Por Erich Beting às 18h29

17/08/2010

Como fazer um torneio como a Premier League?

Começou na última semana a Premier League, primeira divisão do Campeonato Inglês de futebol. Os dez jogos da primeira rodada levaram 362.677 torcedores aos estádios, uma média de 36.267 pessoas por partida. Mais impressionante, porém, foi a taxa de ocupação das arenas. Em média 89,6% dos assentos dos estádios estavam ocupados. Ou seja, pouco mais de 10% dos lugares vazios em dez partidas.

Em 8 de maio, o Campeonato Brasileiro assistiu à rodada de abertura. Foram, em dez jogos, 113.168 torcedores nos estádios. A média de 11.316 torcedores por partida. Mais impressionante, porém, foi a taxa de ocupação das arenas: apenas 23,2% dos assentos no estádio estavam ocupados, ou quase 80% de lugares vazios!!!

Mas o que explica tamanha diferença? Não é só poder aquisitivo das populações, ou então o horário de início dos jogos. Há muito mais do que isso. A começar pelo calendário dos dois eventos. O Brasileirão começou em maio, em meio a fases decisivas de Copas do Brasil e Libertadores. Com isso, alguns clubes entraram com jogadores reservas, para preservar as demais competições.

Além disso, está a óbvia diferença de cultura em se promover o jogo de futebol no estádio. Ir a uma partida num estádio na Inglaterra é um programa. No Brasil, uma aventura. Por aqui, na maioria das vezes o torcedor é tratado como um mero gado, pronto para ir ao abate. Por lá, ele é o rei que coloca dinheiro dentro do clube. A polícia, aqui, trata todo torcedor como bandido em potencial. Lá, existe um setor especializado em tratar com os torcedores, em geral tão ou mais violentos do que os brasileiros.

A economia nacional tem ajudado a encher mais os estádios. Como visto, ainda muito abaixo do potencial que existe de consumo. Mas será que esse modelo de tratar o torcedor como mero apêndice do esporte aguenta em momentos de crise? O poder aquisitivo do inglês caiu, e muito, nos últimos dois anos. E a ida de torcedores aos estádios segue em alta.

O primeiro passo para se fazer um campeonato parecido com o Inglês é passar a pensar em conjunto para melhorar o produto futebol. Algo que os ingleses precisaram fazer no final dos anos 80. Por aqui, a liga sequer pensa em dar liga. Encher estádios ainda é algo muito distante de nossa realidade...

Por Erich Beting às 19h55

16/08/2010

Cala a boca, Galvão?

“Eu acho até que a Globo deveria mandar mais no futebol. Porque ela paga as contas”. Essa foi a frase dita por Galvão Bueno em entrevista à jornalista Mônica Bergamo na “Folha de S. Paulo” do último domingo.

Pelas mídias sociais, muita gente ampliou o coro do “Cala a boca, Galvão”, por conta da declaração. Muito dessa gritaria veio, possivelmente, por ser Galvão Bueno. A voz da televisão brasileira no esporte já há, pelo menos, quase duas décadas. O cara que fala pelos cotovelos e que, muitas vezes, fala mais do que deve. Ou que deveria, pelo menos na visão do torcedor.

Mas Galvão não falou tanta bobeira assim. Porque a pergunta foi sobre o futebol. Sim, a Globo impõe alguns horários dos jogos, dificulta a aparição de patrocinadores, boicota times com nome de empresas. Mas sua influência sobre as disputas do futebol geralmente para por aí. Fossem outras modalidades esportivas disputadas no Brasil, aí Galvão nunca poderia dizer que falta maior poder para a emissora.

A Globo manda no esporte fora do futebol. É ela quem determina quando, como e o que pode ser veiculado pela TV aberta no país. Essa política de dominação do mercado atrapalha, e muito, no desenvolvimento de outras modalidades esportivas. Mas, mesmo aí, fica-se naquela velha discussão sobre quem é mais poderoso: a mídia ou o esporte. Sob essa ótica, Galvão deu mais uma de suas Galvãozadas. Dizer que a Globo precisa ter mais poder sobre o esporte porque é ela quem paga a maior parte da conta é uma grande besteira.

No futebol, nos últimos cinco anos, a influência da TV sobre a receita dos clubes tem ficado cada vez menor. O desenvolvimento do esporte como negócio tem feito com que os clubes ganhem cada vez mais com patrocínio, venda de ingressos, venda de produtos licenciados e criação de programas de incentivo para os seus torcedores (mais popularmente conhecido como sócio-torcedor). Isso tudo faz com que o bolo tenha fatias cada vez mais parecidas entre essas que são as principais fontes de arrecadação dentro de um clube de futebol.

Além de o poder de barganha da TV ter ficado mais fraco por conta disso, outro fator, que é muito importante, deve ser levado em consideração nessa que é uma das mais delicadas relações do esporte: a convivência da mídia com o esporte.

Sim, a Globo é rica, influente e forma opinião. Com isso, ter uma competição esportiva exibida pela emissora é um dos sonhos de qualquer organizador de evento. Cinco minutos na telinha da Globo valem muito mais do que uma hora em qualquer outro veículo de mídia neste país.

Mas será que o esporte também não é artigo de luxo para a Venus Platinada?

As maiores audiências da TV estão hoje ligadas ao esporte. Numa era de fragmentação da mídia, com o consumidor passando a ser quem decide o que vai ver, como vai ver e onde vai ver, o conteúdo de um veículo de mídia passa a ser o seu produto mais valioso.

Não é mais a grade fixa de programação de uma emissora que determina o comportamento de consumo, especialmente entre aqueles com maior poder aquisitivo (e que, por conta disso, tem acesso mais fácil aos diferentes tipos de mídia). É o consumidor que escolhe.

Com isso, o esporte ganha uma força brutal na estratégia de um canal de TV. O conteúdo de uma competição esportiva passa a ser fundamental para assegurar audiência. A fidelidade do torcedor com seu time ou atleta preferido levam-no a querer consumi-lo em tempo real, quando o evento esportivo acontece.

É uma situação diferente daquela vivida pelo fã de uma novela, de um filme ou de uma banda de rock. Ele consumirá seu evento, mas não necessariamente ao vivo. Com o esporte, a necessidade do consumo imediato faz dele um produto de grande valia para as emissoras. E, dessa forma, dizer que é a TV quem deve mandar no esporte pode não ser tanta verdade assim.

O mundo ideal coloca TV e esporte do mesmo lado, trabalhando juntos para a promoção de um evento. Para a mídia, é a chance de aumentar a audiência e, assim, ganhar mais verba dos anunciantes. Para o esporte, ter a presença da mídia em seu evento atrai mais fãs, mais atletas e, consequentemente, mais dinheiro para o evento.

Só que, para que o esporte passe a ser tão forte e influente assim, não pode deixar acontecer aquilo que Galvão disse em sua entrevista. Ou ele se prepara para obter diferentes fontes de receita, ou a TV vai continuar a ser mais forte do que ele. E, aí, ou ela manda e desmanda ou o esporte acaba. E, pode ter certeza de que, se isso acontecer, a função da mídia que fala sobre essa modalidade também vai acabar...

* Coluna publicada originalmente na Universidade do Futebol

Por Erich Beting às 09h33

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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