Blog do Erich Beting

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28/08/2010

Os riscos de uma arena para a Copa do Mundo

A decisão foi política, como já tinha ficado claro desde o momento em que o presidente da Fifa, Joseph Blatter, levantou o papel com o nome do Brasil escolhido para sede da Copa de 2014. Desde aquele já longínquo 30 de outubro de 2007, o Mundial brasileiro passou a ser um jogo político, em que o negócio e a racionalidade na gestão de recursos deram lugar a interesses pessoais e conjunturas para favorecimento e/ou prejuízo de outros.

O episódio mais recente disso é a escolha de um possível estádio corintiano para ser a sede paulistana durante a competição. Não, nada contra o Corinthians, ou a favor do São Paulo, do Morumbi, da Arena Palestra Itália ou do que quer que valha.

Esqueça a paixão clubística. Torça pela sua cidade, pelo seu dinheiro, pelo seu país.

São Paulo havia se preparado, desde sempre, para fazer a Copa no Morumbi. Recursos públicos seriam alocados para a melhoria da infraestrutura de transporte local (o que é dever do Estado, não há qualquer discussão sobre isso). Uma mudança de planos foi causada pela disputa política entre os presidentes da CBF e do São Paulo. E a cidade nessa?

Orgulhosa de ser o “motor do país”, a cidade de São Paulo é a que pior exemplo tem dado na gestão da Copa do Mundo. A arrogância paulistana mais uma vez falou mais alto. “Só nós somos capazes” é um lema que nós, paulistanos, adoramos usar. Mas a certeza de realização poderá ser cruel na questão do Mundial. Já se foram quase três anos desde que o Brasil foi escolhido como sede. Restam menos de três anos para o evento-teste da Fifa, que será a Copa das Confederações em 2013.

Dá para construir um novo estádio até lá? Sem dúvida. Mas e as questões urbanas, numa cidade tão complexa como São Paulo, são possíveis de serem resolvidas? Esse talvez seja o grande problema.

Ainda não há detalhes sobre o novo estádio corintiano. O que se sabe é que ele estará em Itaquera, região que, tal qual o Morumbi, carece de melhores investimentos em infraestrutura de transportes. Até aí, nada de novo. Mas será que em três anos é possível sanar essas deficiências? Capacidade de realização pode até ser que se tenha, mas com qual nível de qualidade? Qual é o exemplo que a cidade “motor” do país quer deixar?

Mais além disso, a questão seguinte é especificamente para o Corinthians. Um estádio em Itaquera é o melhor para o clube? Sem dúvida que é melhor do que se pagar a conta de aluguel do Pacaembu. Mas e o torcedor que já está acostumado, desde sempre, a ter o estádio municipal como “casa” do Timão? Ele vai concordar em ter de se deslocar para outro lugar? O hábito de consumo está intimamente ligado à região em que o estádio se localiza.

O estudo de viabilidade de uma arena é fundamental antes de sua construção. Se o Engenhão, por exemplo, tivesse feito o seu, perceberia que seria impossível manter um estádio daquele tamanho numa região distante do centro da cidade.

Em 1990, os italianos de Turim, uma espécie de São Paulo italiana, celebrou a construção do Delle Alpi para a Copa do Mundo. Afastado do centro, moderno (para a época), para ser usado pela maior torcida da cidade (e da Itália), não tinha como dar errado! A Juventus, 20 anos depois, já aprovou a construção de um estádio numa região mais central, para diminuir o prejuízo que tinha com a instalação “distante e fria”, como o próprio clube a classificou.

Em 1996, os holandeses de Amsterdã viram com certo receio a construção da Amsterdam Arena, numa região afastada do centro. Hoje, 15 anos depois, o local onde está o estádio é um dos mais valorizados centros de negócios da Europa. A arena tem casa cheia a maior parte do tempo e os imóveis da região passaram a valer muito dinheiro.

O que diferencia um caso do outro?

O primeiro estádio foi feito pensando-se na Copa do Mundo, sem preocupação com o conforto do torcedor e, também, com a facilidade de acesso ao local. O segundo, foi criado pensando-se em revitalizar uma área degradada de Amsterdã e oferecer uma arena adequada às exigências cada vez maiores do consumidor. O futebol é o motivo de tudo, mas o estádio e seu entorno foram construídos pensando-se em 24 horas de utilização, durante 365 dias do ano. Além disso, o Delle Alpi é gerenciado pela Juventus, enquanto que a arena de Amsterdã é controlada por uma empresa cuja função é fazer o local ser lucrativo e movimentado o tempo inteiro.

Quem vai gerenciar a nova arena do Corinthians? Como será o acesso do torcedor a ela?

Essas são questões que ainda estão de pé. E são fundamentais para que, de novo, a política não fale mais alto do que o negócio. Do contrário, a cidade de São Paulo terá um lindo e novo estádio para a abertura da Copa do Mundo. E, depois disso, ele será uma tremenda dor de cabeça para o dono dessa arena.

O estádio não pode ser pensado para a Copa do Mundo, mas sim para o dia-a-dia. Felizmente, a arena corintiana não será pública. É uma conta a menos para a população pagar.

Por Erich Beting às 07h53

27/08/2010

O que o quarto de hotel da Barbie explica ao esporte

Está na capa do UOL desta sexta-feira. O hotel Plaza Athénée fechou uma parceria com a Mattel para o lançamento de um quarto de hotel com o tema da Barbie. Tudo, dentro do espaço, remete à famosa boneca. Beleza, mas o que isso tem a ver com esporte?

Por que o mesmo hotel não cria um quarto com a temática esportiva? A lógica é a mesma que funcionou no caso da Barbie.

O esporte tem de se colocar dentro da indústria do entretenimento. Não cabe mais a quem gerencia as modalidades esportivas imaginar que não seja o esporte concorrente da Barbie, do Toy Story ou de qualquer outro produto de lazer das pessoas.

Quantos fãs de esporte são perdidos numa criança que tem acesso a absolutamente tudo da Barbie e nada de seu atleta favorito, ou do time de coração? Na hora de escolher uma atividade de lazer, provavelmente essa criança vai preferir a Barbie.

Nos Estados Unidos, os gestores esportivos estão mais cientes dessa realidade. Mas ainda falta muito para o esporte se comportar de maneira a poder fazer frente à indústria da Barbie. Não seria mal nenhum os gestores olharem com carinho para boas iniciativas fora do esporte.

Por Erich Beting às 18h18

25/08/2010

O ídolo é quem faz o esporte crescer?

A tese foi levantada ontem por Montanaro, ex-jogador de vôlei e atual dirigente do time do Sesi, durante a III Semana de Marketing Esportivo, que acontece na USP, em São Paulo, até a próxima quinta-feira. Monta defende a promoção dos atletas ao status de ídolos para que, com isso, os mais jovens se inspirem a praticar determinada modalidade esportiva.

Para ele, o melhor exemplo é do próprio vôlei, que desde os anos 80 passou a encontrar elementos para promover seus atletas e, consequentemente, a modalidade. Desde então, as gerações vão se renovando, assim como a idolatria pelos jogadores. Na palestra, Monta também lembrou do tênis, que deixou de aproveitar o boom da Era Guga.

Hoje, o mesmo tênis tem Thomaz Bellucci como grande expoente da modalidade. Está entre os 30 melhores do mundo, com solidez para ficar entre os top 20 ou top 10 por um bom tempo. Mas de nada adianta ter performance se a imagem do atleta não é bem trabalhada e, mais do que isso, se ele não tem carisma com o torcedor.

Foi o caso, por exemplo, de Rivaldo no futebol, esporte em que os ídolos são criados a todo instante pela imprensa. Com performance astronômica, mas sem tanto apelo com o público, Rivaldo sempre ficou à margem do sucesso comercial de um Ronaldo, um Ronaldinho, um Romário. O Santos, agora, tenta trabalhar a imagem de Neymar e Ganso para mantê-los no clube e, mais do que isso, formar uma nova geração de torcedores.

O esporte precisa detectar não apenas o talento para a prática do atleta. É preciso, também, saber trabalhar a imagem do esportista. Só assim o futuro das modalidades terá um sucesso maior.

Por Erich Beting às 17h34

23/08/2010

Para que serve o COB?

No domingo, a “Folha de S. Paulo” publicou entrevista com o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman. Moral da história de cerca de 1 hora de conversa com a repórter Mariana Bastos. O presidente do COB não sabe para que serve a entidade...

Pelo menos é isso que dá para compreender da resposta de Nuzman quando questionado sobre a péssima formação de atletas do país. Diz o mandatário do COB:

“O COB não tem atletas, não forma atletas. Não somos os responsáveis pelos resultados das confederações. Eu não tenho como entrar em uma confederação e dizer o que tem que fazer”.

Sim, é verdade. Há 15 anos Nuzman deixou por cima a presidência da Confederação Brasileira de Vôlei para presidir o COB. Na bagagem, o ouro inédito no masculino, em 1992, e a transformação de uma modalidade ao longo de 20 anos de gestão.

Só que, ao dizer que não é de competência do COB formar atletas (e não é mesmo!), Nuzman deixa de lembrar que há um detalhe ainda mais importante. Hoje, o atleta ou modalidade que tenha interesse em receber verba para um projeto, tem de passar pelo COB.

Ao longo dessa década e meia de gestão de Nuzman, o COB se transformou no grande pedágio do esporte brasileiro. Toda verba destinada às ditas modalidades olímpicas para antes nas mãos do comitê para, então, ser realocada conforme os interesses da entidade.

Esse pedágio faz com que o comitê decida em quais condições uma modalidade possa crescer no país. Conforme o interesse do COB o esporte ganha mais ou menos dinheiro.

Do jeito que está estruturado o esporte no Brasil atualmente, o único responsável pelo desempenho dos atletas no país é o COB. Não é função do comitê revelar, formar e desenvolver esportistas. Mas ao tomar para si toda a verba do esporte, o COB é o único em condições de definir de que forma uma modalidade pode existir.

Não adianta Nuzman querer tirar o corpo. Se é ele quem decide de que forma as confederações recebem a verba para trabalhar, indiretamente é ele quem define a formação de atletas no país.

O COB, na prática, serve como tomador de decisão da formação de atletas no Brasil. Caso estivéssemos num mundo ideal, a função do comitê seria apenas regulamentar a disputa de modalidades esportivas e ajudar no fomento do esporte. Mas isso, sem dúvida, não renderia o mesmo tanto de dinheiro, e de poder, para o presidente do comitê...

Por Erich Beting às 16h29

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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