Blog do Erich Beting

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28/10/2010

Patrocínio não é caridade

Daniele Hypólito colocou em pauta, via Twitter, uma interessante discussão para o esporte. Um dos principais nomes recentes da ginástica artística brasileira, Daniele desabafou que não consegue um patrocínio, mesmo tendo bons resultados esportivos. Tamanha desilusão fez com que a ginasta também questionasse o futuro dos atletas no país e, mais do que isso, qual o legado que os Jogos Olímpicos de 2016 deixarão ao país.

É absolutamente justo Daniele colocar o dedo na ferida e expor uma situação delicada que ela passa, mas desde que tenha sentido fazer esse desabafo. Sim, ela é uma dos maiores nomes da ginástica brasileira, tem em seu currículo muitas vitórias, excelentes resultados no passado e bom desempenho na atualidade. Mas será que ela é um bom produto para uma empresa investir?

Essa é a grande questão que tem de ficar na cabeça de quem busca o patrocínio. Por que uma empresa deve se associar a um atleta ou a um clube?

Patrocínio não pode ser encarado como caridade. Nem de um lado, nem de outro. Com a evolução do esporte como ferramenta de comunicação para as empresas, naturalmente não será mais uma ajuda que uma marca dará ao seu patrocinado, mas sim a busca de resultados que ele possa alcançar. Nesse sentido, nem sempre é o desempenho esportivo o que mais conta. Uma empresa pode buscar no esporte algum atributo que aquele atleta ou aquela modalidade traz. E isso não está atrelado necessariamente ao desempenho.

Um bom exemplo disso é a ex-tenista Anna Kournikova, uma das mais ricas do circuito sem ao menos ter vencido um torneio individual. Para as marcas, a imagem que ela representava era mais importante do que o desempenho em quadra. Da mesma forma, as gêmeas do nado sincronizado Bia e Branca Feres conseguem muito dinheiro explorando o lado sensual e a comunicação com o público jovem do que pelo que fazem nas piscinas.

Daniele Hypólito tem todo o direito de reclamar. Mas será que não falta aos atletas brasileiros ter um elaborado trabalho de valorização de sua marca, mostrando que não é só o desempenho esportivo que eles possuem um garantidor de retorno para o patrocínio?

Um dos bons reflexos de Copa do Mundo e Jogos Olímpicos no Brasil é que as empresas passarão a entender melhor como investir no esporte. Falta o atleta compreender que a fase do "paitrocínio" está próxima da extinção.

Por Erich Beting às 17h06

27/10/2010

O negocião da escolha de uma sede de megaevento

O escândalo que abala a escolha das candidaturas das Copas do Mundo de 2018 e 2022 nada mais é do que um reflexo do grande negócio que se tornou, desde a década de 2000, receber grandes eventos esportivos. Sob o discurso do legado que esses eventos proporcionam, esconde-se uma grandiosa cadeia de investimentos que recebe o país que abriga um megaevento.

A Fifa vive, agora, o mesmo momento mais do que delicado pelo qual passou o Comitê Olímpico Internacional com a escolha de Salt Lake City como sede dos Jogos Olímpicos de Inverno em 2002. Um processo longo de escolha da sede, marcado pela participação de um bom número de candidatos que por sua vez tinham livre acesso aos avaliadores do COI. Uma década depois, o escândalo passa a ser da Fifa, que tentava manter sempre a aura de "lisura" em suas escolhas para sede de Copa do Mundo.

A Fifa que, é importante lembrar, havia feito um estardalhaço pelo acordão político que fez do Brasil único candidato à Copa de 2014. Joseph Blatter criticou a falta de outra alternativa para a América do Sul e apontou esse fato como motivo para, já em 2007, os países lançarem suas candidaturas para as Copas de 2018 E 2022. Com isso, o argumento do dirigente era de que os países teriam mais tempo para se preparar e, mais importante, o rodízio de continentes acabaria.

Na prática, a Copa de 2018 voltará para a Europa, enquanto que o torneio de 2022 poderá ocorrer na Ásia, América do Norte ou Oriente Médio. E essas definições foram abrindo espaço para muita bajulação e algo a mais sobre os delegados da Fifa que escolhem onde será o grande evento de futebol do planeta.

A grandiosidade desses eventos deu espaço para a falta de ética. Hoje, um país recebe bilhões de dólares em investimento para organizar um evento desses. A economia local fica aquecida por cerca de uma década por conta da competição. Diversos políticos se elegem por conta disso, vários empregos são criados, setores econômicos estagnados voltam a ver crescimento, etc. Além disso,o evento gera mídia espontânea do país organizador para todo o mundo, abrindo espaço para realização de novos negócios.

Sendo assim, abre-se caminho, infelizmente, para a manipulação de votos. Vale qualquer preço para que um país seja escolhido como sede de um evento monstruoso como uma Copa ou Olimpíada. Soma-se a isso uma estrutura corrompida como a do esporte e o que era para ser um grande negócio vira um "negocião" para poucos.

A Fifa poderia dar o exemplo e simplesmente cancelar o processo de escolha de sedes para 2018 e 2022, mudando todos os delegados e escolhendo uma comissão técnica, apartidária, para decidir onde serão os próximos Mundiais. Mas como quem escolhe está muito ligado a quem está no poder...

Por Erich Beting às 17h40

26/10/2010

O risco do esporte para a propaganda

Na semana passada a Topper estreou uma nova campanha publicitária. A peça, seguindo a linha de "diversão" da empresa, brincava com a invencibilidade do time de futsal do Brasil, patrocinado pela marca e então há 158 jogos invencível na modalidade. Praticamente na mesma época, a Pepsi colocou no ar a peça que tem como o garoto-propaganda de maior destaque Paulo Henrique Ganso, jogador do Santos, afastado dos gramados por lesão no joelho.

Os dois casos mostram o risco que há para a propaganda ao investir no esporte. No caso da Topper com o futsal, o improvável aconteceu. Depois de 163 partidas, o time brasileiro perdeu. Toda a campanha foi por água abaixo após o jogo da manhã de domingo contra a Espanha.

Já com a Pepsi, a repercussão que a peça publicitária teria caso Ganso não estivesse no estaleiro sem dúvida seria maior. O rosto do atleta, também, seria mais facilmente reconhecido por um público que não é do esporte.

A oscilação da imagem de garotos-propagandas do esporte conforme o seu desempenho é um dos maiores entraves para um maior investimento em atletas e clubes como motes de campanhas publicitárias. Com o cenário de Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, a tendência é que se busque mais fazer campanhas com a temática esportiva. Mas o risco é quase sempre maior por conta do desempenho do atleta. Risco alto, porém, muitas vezes significa ganho alto quando o negócio é bem-sucedido.

Por Erich Beting às 16h39

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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