Blog do Erich Beting

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16/12/2010

As dívidas e os clubes de futebol

As dívidas começam a assombrar o futuro do futebol na Europa. O contrato de patrocínio com a Qatar Foundation firmado pelo Barcelona serviu para brilhar ainda mais a luz amarela, quase vermelha, na cabeça do europeu em relação ao futuro do futebol no continente.

Especialmente na Inglaterra e na Espanha, as dívidas cada vez maiores dos clubes preocupam. Ainda mais no futebol inglês, que segue cada vez mais o modelo americano de gerenciamento do esporte, em que o time acaba quando deixa de ser lucrativo. Entre os espanhóis, o maior receio é com relação ao modelo de gestão da liga local, que privilegia Barcelona e Real Madrid, enquanto os outros clubes sofrem com a falta de novas receitas.

Mas afinal qual o problema de um clube ter dívidas?

No mundo corporativo, grandes empresas contraem grandes dívidas. Não é regra, mas é comum uma empresa se endividar, especialmente para crescer. Seja para expandir a capacidade de produção, para aumentar o campo de atuação, etc. Na regra básica de mercado, quando a empresa vai bem, as dívidas muitas vezes ajudam a impulsionar o crescimento da companhia.

Mas o que leva os clubes na Europa a se endividarem a ponto de se tornarem ingovernáveis?

Aí é que está o grande problema hoje do futebol. Diferentemente do mercado corporativo, nem sempre endividamento representa crescimento nas finanças. Em busca de um time mais competitivo, os clubes contraem dívidas maiores, aumentam os salários dos astros e esperam o resultado dentro de campo para aumentar as receitas.

Só que nem sempre essa lógica prevalece. Ou, mesmo que venham as vitórias dentro de campo, elas precisam, necessariamente, serem acompanhadas de aumento da receita. E esse é o enrosco. Quando uma empresa abre uma nova fábrica, aumenta a linha de produção e o número de lojas, ela consegue aumentar as vendas e, no longo prazo, fazer com que as dívidas sejam pagas e a margem de lucro aumente.

E no futebol? Como fazer para ganhar mais dinheiro sem representar aumento de dívidas?

Até pouco tempo atrás, com o mercado europeu em alta e o torcedor consumindo, essa equação estava bem resolvida. Agora, porém, com a crise pegando forte, com as pessoas consumindo menos e as empresas freando os investimentos, os clubes começam a ter problemas para cumprir com os acordos feitos com seus grandes atletas. É aí que o endividamento começa a pegar.

Nos EUA, time que não dá lucro é fechado. No futebol, virou um dogma a falência de um clube. O torcedor, a opinião pública e a própria esfera pública impedem que ele deixe de existir, mesmo que seja uma empresa insolúvel do ponto de vista financeiro.

Como solucionar isso parece ser o grande dilema do futebol europeu nos próximos anos. No mar de incertezas, a luz no final do túnel é a Alemanha. A racionalidade na gestão alemã faz com que os clubes daquele país tenham dívidas administráveis. O reflexo disso ocorre dentro de campo, com times menos competitivos em relação aos demais da Europa. Só que, dentro do caixa, a situação é mais para o azul do que para o vermelho.

De novo, porém, o exemplo reside nos Estados Unidos. Para dar lucro, as franquias podem até se endividar, mas não cometem loucuras. Uma das provas é o teto salarial que as ligas decidiram instituir. Com limite de gastos, os clubes ficam mais equilibrados financeiramente e mesmo esportivamente.

Esse é um dos pacotões que o futebol precisa adotar nos próximos anos para que essas dívidas não virem problemas sem fim.

Por Erich Beting às 17h37

13/12/2010

Allez, Guga!

O que tem mais para se falar de Guga? Estava pensando exatamente isso na noite de sábado, enquanto tentava conter as lágrimas dentro da garganta vendo o choro do maior fenômeno que o tênis brasileiro produziu e, muito provavelmente, produzirá na sua história.

Nessa hora que pensei no “Allez, Guga”, que os torcedores franceses souberam entoar durante os cinco maravilhosos anos em que ele foi o Rei de Roland Garros. Guga era o cara que, entre 97 e 2002, queríamos ver, saber o que ele fazia, consumir o que ele consumia, seguir seu estilo de vida.

Guga foi o que falta, e muito, para o esporte brasileiro. Um ídolo carismático, simpático, alegre, vencedor. Um cara que nos dá orgulho de ter nascido no mesmo país dele, que nos motiva a sonhar mais alto, a querer ser melhor, a ser tão competente quanto ele.

Ídolo que hoje é uma palavra tão ausente do cotidiano do nosso esporte. De jogadores que se deixam levar rapidamente pelo grande dinheiro que circula em outros países, que não tentam entender a importância de se criar um vínculo com suas origens, que são massacrados pela vontade de lucrar de clubes, empresários, família, dirigentes, etc.

Não só no futebol, mas também em outros esportes com menor volume de dinheiro gerado, vemos uma crescente fuga de potenciais ídolos. E isso é extremamente prejudicial para que a gente consiga desenvolver ainda mais o esporte no país.

Guga consegue, ainda hoje, deixar o torcedor próximo do tênis. Para um esporte carente de ídolos, seu trabalho é fundamental para ajudar no crescimento da modalidade. A mesma lógica vale para outros esportes, que só conseguem atrair a força da mídia quando há um vencedor como foi Guga.

Mas até mesmo o tão massacrado futebol brasileiro precisa abrir o olho. Sim, ele não precisa do ídolo para manter a chama do torcedor acesa, a força da paixão pelo clube garante que tenhamos uma conexão imediata da pessoa com o time. Mas a ausência do ídolo, no longo prazo, é extremamente prejudicial para o interesse do torcedor pelo clube. Sem ter para quem torcer ou, pior, tendo para quem torcer apenas fora do país, ele se distancia daquela que deveria ser a sua grande paixão.

Que tenhamos mais Gugas no esporte de hoje. Não será só o tênis quem vai agradecer.

Por Erich Beting às 19h15

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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