Blog do Erich Beting

Busca

14/01/2011

O esporte pelo social

No vôlei, a Unilever fará três partidas com renda destinada às vítimas das enchentes no Rio de Janeiro e com arrecadação de alimentos e demais materiais necessários para ajudar os desabrigados. No futebol, o Clube dos 13 fechou parceria com a Cruz Vermelha para tentar ajudar de alguma forma. No tênis, o Instituto Gustavo Kuerten recebe doações das mais diversas para colaborar. Na mídia, a TV Esporte Interativo abre espaço para que as pessoas também colaborem.

O esporte entendeu que tem uma função social importante. Infelizmente, como em quase tudo que acontece em nossa vida, percebemos a necessidade de mobilização quando a tragédia já está posta.

Nunca é tarde para poder ajudar. Só que seria interessante se houvesse uma preocupação constante do esporte com o lado social. Na Europa e nos Estados Unidos, já está enraizada na cultura esportiva a necessidade de usar sua força de mobilização social.

É só uma questão de responsabilidade de quem consegue, como poucos, mobilizar tanto as pessoas. Não é só o esporte quem agradece.

Pausa - o blogueiro entra em férias nesta próxima semana. Voltamos com tudo a partir do dia 24, esperando que ventos melhores soprem e chuva não caia onde há tanta devastação

Por Erich Beting às 18h59

13/01/2011

E os jogadores tomaram conta dos clubes

Primeiro foi Ronaldo e agora é Ronaldinho Gaúcho. A volta de dois ex-melhores do mundo ao futebol brasileiro fez com que os clubes subvertessem a lógica e passassem a ter os atletas como seus "sócios". Em vez de contar com o talento do jogador, ou pelo menos com o apelo de mídia e de público que ele possui, o clube se coloca numa posição de relativa inferioridade e passa a dividir receitas significativas com esse atleta.

Os dois Ronaldos revelam o quanto o futebol brasileiro ainda carece de maior força em seu setor administrativo para poder competir em nível de igualdade com os rivais da Europa, hoje o maior centro econômico do futebol mundial.

No Corinthians, a contratação de Ronaldo foi viabilizada ao clube ceder parte do valor que receberia do patrocinador ao atleta. Agora, no Flamengo, Ronaldinho ficará com 50% de tudo o que o clube conseguir arrecadar acima de R$ 28 milhões pelos patrocínios no uniforme. Pior ainda a situação, já que a Traffic fica com outros 40%, restando ao Flamengo (que é o dono da propriedade comercial envolvida), apenas 10% desse montante (leia a matéria completa clicando aqui).

Ou seja, se o Flamengo saltar, agora, para R$ 50 milhões em patrocínios, o clube terá direito a R$ 30,2 milhões dessa verba. O aumento que seria de R$ 22 milhões transforma-se em apenas R$ 2,2 milhões. Pela situação atual do clube, receber mais do que R$ 28 milhões é bom. Mas será que a conta tem de ser essa mesma? 

Afinal, o atleta é maior que o clube ou o contrário? Sem dúvida que a combinação de Ronaldo e Corinthians, ou de Ronaldinho e Flamengo, contribui para uma valorização das propriedades comerciais dos clubes. Mas daí ao jogador se transformar em sócio dos novos parceiros comerciais de seu time é um salto muito grande.

Na década passada, o futebol da Europa se acostumou a ver em David Beckham uma mina de ouro para um clube. Primeiro foi o Manchester, depois o Real Madrid. E, por fim, o Milan. Os três clubes aumentaram seu faturamento com o trabalho de prospecção de novos parceiros e novos torcedores a partir do momento em que Beckham entrou para seu quadro de funcionários.

Sim, isso mesmo. Beckham é um funcionário do clube como outro qualquer. Pelo menos no que diz respeito ao modelo de remuneração do atleta. O salário dele se paga a partir do orçamento do clube, não é preciso ter uma parceria com um eventual novo parceiro comercial para que o clube possa pagar o atleta.

Pelo contrário. Em Madri, Beckham aceitou dividir pela metade o que recebia de seus contratos de patrocínio para poder jogar no Real. A crença é de que o jogador se valoriza tanto ao defender o clube que, por isso, passa a ganhar mais com novos contratos de patrocínio. E é direito do clube, ao valorizar a imagem do atleta, ficar com parte de seu ganho extra, fora do período em que trabalha para seu empregador.

No Brasil, Corinthians e Flamengo inverteram essa lógica. Colocando-se numa posição de relativa inferioridade, aceitaram que os atletas é que valorizam o clube, mas não o contrário. E, além disso, admitiram, indiretamente, que não possuem força para aumentar suas receitas a não ser com a chegada de um atleta midiático.

Os jogadores é que tomaram conta do clube, quando eles não deveriam passar da condição de meros "funcionários" desses clubes...

Por Erich Beting às 20h27

12/01/2011

Semana de moda ou de jogo?

"Maria Sharapova mostra a roupa que usará no Aberto da Austrália". A manchete estava, na manhã desta quarta-feira, na capa do UOL, junto com um álbum de fotos com a musa do tênis mundial, que na próxima semana começa a disputar o primeiro Grand Slam do ano. No site do próprio Aberto da Austrália, o repórter brinca sobre o "lançamento" que a tenista russa promoveu, em parceria com a Nike, sua patrocinadora.

Pouco depois de ver as fotos no UOL, recebi em meu e-mail um comunicado à imprensa da Adidas, com informações do uniforme que será usado por Caroline Wozniack, atual número 1 do mundo, e que terá uma roupa especialmente desenhada pela estilista Stella McCartney, que tem parceria com a fabricante alemã.

O que faz com que essas notícias sejam tão relevantes um pouco antes do Aberto da Austrália começar para valer envolve tanto a associação dos tenistas quanto as fabricantes de material esportivo.

Na semana pré-evento, os tenistas, por exigência da própria associação, participam de diversos eventos para promover a cobertura da mídia sobre a competição. Da mesma forma, para os fabricantes de material esportivo, o lançamento de novos uniformes numa época pós-Natal é muito importante para gerar novas vendas e reforçar a ligação da marca com o esporte.

No final das contas, fica a dúvida se as tenistas vão para uma semana de moda ou de jogo.Mas sem dúvida que a promoção que esse tipo de ação gera para o evento e para as próprias marcas envolvidas é fenomenal.

As conclusões podem ser tiradas no vídeo abaixo, que tem um pouco da entrevista coletiva que Sharapova concedeu em Melbourne e muito do estilo de roupa que ela usará nas quadras australianas.

Por Erich Beting às 10h55

11/01/2011

Ronaldinho, a ética e a profissionalização no futebol

Ronaldinho Gaúcho finalmente disse sim. Após longa negociação num quadrado amoroso envolvendo Grêmio, Palmeiras e Flamengo, o clube do Rio de Janeiro levou a melhor e acertou seu contrato até 2014 com o ex-jogador do Milan. Esse sim de Ronaldinho, porém, revela muito do quão pouco ético e quão pouco profissional pode ser o futebol nos dias de hoje.

A primeira dúvida que fica no caso é sobre a lisura de Assis, irmão e dublê de empresário do jogador, na condução das negociações com os clubes. Desde a saída forçada do Milan até a conversa, em paralelo, com três diferentes agremiações.

Ronaldinho tinha um contrato com o Milan que estava em vigência. O atleta simplesmente forçou a barra para sair da equipe italiana. Não fez o absurdo de simplesmente abandonar o clube, como muitos (Robinho é o maior mestre nessa arte) estão acostumados a fazer. Mas também deixou claro que gostaria de deixar Milão e retornar ao Brasil. Não seria mais correto continuar trabalhando a serviço do clube enquanto não definia o destino que ele teria? Principalmente porque havia uma multa rescisória em caso de o atleta deixar o clube antes do término de seu contrato.

Depois de acertar a saída do Milan, Assis passou a negociar com Grêmio, Palmeiras e Flamengo. Aí entramos, além da questão ética, na falta de profissionalismo de dirigentes, atleta e irmão/empresário.

Assis deveria ter cumprido com a palavra, ou então agido de forma profissional. Acertou com um clube, faz um pequeno contrato confirmando que há um acerto. No mundo corporativo, é o tal do “Memorando de Entendimentos”, termo que duas empresas que negociam assinam após chegarem a um primeiro entendimento para um modelo de negócio. Essa prática, até hoje, simplesmente inexiste no futebol.

“O Palmeiras foi correto demais. É muita correção, muita gentileza, é ser muito cavalheiro e correto com as coisas, e o futebol atualmente é muita sem-vergonhice. O Palmeiras já tinha um acerto definido desde o fim de dezembro, e só não foi assinado no Rio por um erro da diretoria, que não assinou um acordo com multas, validade. Senão, estaria tudo resolvido”.

A declaração é de Luiz Felipe Scolari, técnico do Palmeiras, sobre a condução dos negócios entre o clube e Assis. O clube paulista, assim como o Grêmio, foi extremamente infeliz em usar a imprensa para anunciar acertos verbais como verdades sacramentadas. Nessa novela, só o Flamengo soube como se comportar adequadamente.

Mérito do clube, de não falar sem ter nada concretizado. Mas falha, principalmente, do irmão de Ronaldinho, que deu o ok para os três, mas só poderia assinar com um. E aí é que entra a questão da profissionalização que ainda está longe de ser vista em alguns casos do esporte no mundo inteiro.

Ronaldinho tem a sua carreira gerenciada pelo irmão. Assis teve como maior mérito na vida ser um ótimo jogador de futebol. Mas não se aprimorou para ser um gestor de carreira. Assis é um cara bem relacionado. Conhece os atalhos do futebol por ter vivido esse ambiente a vida toda. Tem contato com clubes, dirigentes, atletas e treinadores.

Mas “só” isso.

Se Ronaldinho tivesse uma equipe ou alguém mais bem preparado trabalhando para pensar a sua carreira, com certeza teria tido muito cuidado na negociação com um, dois, três ou trinta clubes que eventualmente se interessariam em contar com ele. Mas Assis é irmão de Ronaldinho. E, por isso, por mais profissional que ele possa ser, sempre terá a barreira do amor, do carinho, da proteção ao irmão caçula. É impossível achar que o leilão pelo atleta também não foi fruto desse sentimento de que o irmão vale ouro, talvez mais até do que possa ser pago para ele.

O filme que melhor mostra essa questão da necessidade de profissionalização do empresário de um atleta é o americano Jerry Maguire, estrelado por Tom Cruise. Mas, no caso, o conceito do “Show me the money” tem gerado algumas aberrações nos últimos tempos.

Ronaldinho volta ao Brasil. E isso é uma excelente notícia. Ainda mais pelo fato de ele voltar para o clube de maior torcida do país, ou como o próprio Flamengo anunciou, é o “melhor no maior do mundo”.

É uma lufada de bons tempos e, principalmente, prenúncio de boas notícias para um clube que sofreu o calvário em 2010. Mas a maneira como começou esse negócio mostra que, se a base para medir o sucesso da empreitada é o Ronaldo mais famoso, então tudo começou com o pé errado. É só lembrar o quão sigilosa e eficiente foi a negociação entre Corinthians e Ronaldo para a contratação do atleta em dezembro de 2008.

Ética e profissionalização são características extremamente importantes em qualquer ambiente de negócios. E o futebol é um ambiente que precisa urgentemente disso.

Por Erich Beting às 10h07

10/01/2011

2010, o ano em que a bola virou grife

A retrospectiva da década no blog chega ao fim hoje, com o ano que acabou de terminar. E 2010, sem dúvida, ficará marcado pela transformação da bola da Copa do Mundo numa grife. Desde 1970, quando a Adidas fincou bandeira como patrocinadora do Mundial, que a bola de uma Copa tem nome. Mas, ao longo de 40 anos, nenhuma delas ficou tão famosa quanto a Jabulani.

A transformação da Jabulani numa marca famosa foi, também, a síntese de um processo que envolve diversos conceitos de marketing. O primeiro deles é a importância da mídia para a promoção de um produto. A partir do instante em que todo mundo começou a reclamar da Jabulani, pouco antes de a Copa do Mundo ter início, o marketing viral em torno da bola foi se fortalecendo. Em casa, o torcedor queria saber se, de fato, aquela bola poderia escrever certo por chutes tortos...

Depois disso, entrou a importância da Copa do Mundo no imaginário das pessoas. A associação da bola com o grande evento do futebol foi uma combinação explosiva. Todo mundo sabia quem ou o que era a Jabulani.

E, por fim, na solução mais criativa até agora na história das Copas, Fifa e Adidas deram uma tacada de mestre para gravar ainda mais a bola na mente dos consumidores. A entrada triunfal dos times em campo, com a bola esperando num pedestal o árbitro da partida, foi mais um elemento para compor todo o mito em torno da Jabulani.

No final das contas, o bafafá todo em torno da bola da Copa transformou-a em sucesso de vendas, fazendo da Jabulani, com mais de 15 milhões de unidades vendidas, a mais famosa das bolas das Copas do Mundo.

Mas o ano não foi só de Jabulani.

Pelo contrário. A confirmação do Rio como sede das Olimpíadas em outubro de 2009 representou um alívio para as demais modalidades além do futebol.

Com o término da Copa na África do Sul, o mercado brasileiro entrou em ebulição. Novas empresas entraram na modalidade, elevando valores e atrelando o investimento a projetos de médio prazo. O que parecia, porém, um processo sem volta, teve uma reviravolta a partir de setembro.

Numa sequência, o Bradesco foi confirmado como patrocinador do Rio-16, a Nestlé anunciou projeto para patrocinar cerca de uma centena de atletas, a Petrobras fechou acordo via Lei de Incentivo ao Esporte para formar atletas em diversas modalidades e a Samsung retomou, de forma ampliada, o projeto “Medalha Azul”. Todos esses projetos ligados a 2016, pelo menos.

Da mesma forma, o segundo semestre do ano foi marcado por uma onda de grandes agências decididas a adentrar o mercado esportivo brasileiro: Havas, Octagon, 9ine (Ronaldo e grupo WPP), Geo Eventos (Globo e RBS), IMGX (Eike Batista, da EBX, e a agência IMG) e Sport Strategy (Neo Gama e José Carlos Brunoro) foram algumas das mega agências que adentraram o país decididas a faturar com o crescimento proporcionado por Copa e Olimpíadas.

Em meio à efervescência do mercado, outra boa notícia veio de dentro das quadras. A chegada do time do Vôlei Futuro às finais dos Campeonatos Paulistas masculino e feminino de vôlei coroou um projeto de longo prazo que pretende fazer de um time de vôlei um clube com fidelização de torcedores, projeto social, receitas oriundas de diversas fontes e independência da verba de um único patrocinador. O Vôlei Futuro, que tem origem atrelada ao grupo Reunidas, que faz parte da Gol Linhas Aéreas, tem de tudo para ser, com todo o perdão do trocadilho, o futuro do vôlei.

Já na Europa e nos EUA, o mercado ainda sofreu em 2010 com os reflexos da crise. Nos Estados Unidos, NBA e MLB sofrem com a queda de público nos jogos, ao passo que a NFL bate cada vez mais o recorde de audiência na TV e de arrecadação com a venda dos direitos de transmissão. Mostra de que o futebol de lá tem a mesma força, dentro do universo americano, do futebol jogado no restante do mundo.

No mercado europeu, enquanto Londres termina de tentar enxugar gastos desnecessários para os Jogos Olímpicos de 2012, a Inglaterra se revoltou contra a Fifa, que em sua mais polêmica decisão dos últimos anos, decidiu dar o direito de abrigar as Copas de 2018 e 2022 a Rússia e Catar, respectivamente. A escolha pelos países emergentes só reforça o movimento do esporte, hoje, para onde a grana se deslocou.

Por Erich Beting às 22h56

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

Histórico

© 1996-2009 UOL - O melhor conteúdo. Todos os direitos reservados.