Blog do Erich Beting

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25/02/2011

O último rival

Esclarecedor o depoimento dado por Fábio Koff, presidente do Clube dos 13, ao jornalista Juca Kfouri e publicado hoje na "Folha de São Paulo".

O dirigente atira especialmente na CBF e na TV Globo ao responsabilizá-los pelo racha na entidade.

Koff se opôs a Ricardo Teixeira nas eleições do C13 no ano passado e, com isso, comprou briga com o poderoso presidente da CBF. Seu destino, ao que tudo indica, será o mesmo de Eduardo José Farah, ex-presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), que também havia se oposto a Ricardo Teixeira para impedir o fim dos torneios regionais em 2002. Farah ficou ainda meio ano no comando da FPF, renunciando então ao cargo que passou a ser de Marco Polo del Nero.

Koff é, hoje, o último rival de Teixeira que comanda uma entidade, e não um clube, no futebol brasileiro. Ou, até o início desta semana, era...

Por Erich Beting às 18h53

23/02/2011

O direito de arena ainda salva o futebol brasileiro

Em meio a toda polêmica sobre a permanência ou não de Corinthians e Flamengo no Clube dos 13, a salvação para toda a briga é a regulamentação do Direito de Arena para o esporte brasileiro. Tentando simplificar o que representa esse direito, é ele quem de fato regulamenta a venda dos direitos de transmissão de qualquer evento esportivo no Brasil.

Por aqui, quem participa de uma competição esportiva detém os direitos sobre o evento. Ou seja, quando dois clubes jogam um contra o outro, ou então cinco atletas participam de uma corrida, todos têm de estar de acordo que aquele evento seja exibido pela televisão. Isso garante que, no caso do futebol, seja obrigatória a venda coletiva dos direitos de transmissão de um torneio. Afinal, se um clube se opuser ao acordo, todo jogo que ele participar não poderá ser mostrado pelas emissoras de TV. Por conta disso, uma negociação individual para a transmissão dos jogos não acontece no Brasil.

Ainda bem!

Nos últimos anos, o futebol europeu foi recomendado pela União Europeia a adotar a venda coletiva de direitos de transmissão. Em meio à discussão sobre monopólio, abuso de poder econômico, formação de cartel, etc., a UE decidiu que o melhor para os clubes do continente era justamente “adotar o modelo brasileiro”. Sim, é isso mesmo. Sem querer, o Brasil acabou virando exemplo para o futebol europeu fora das quatro linhas!

Por lá, até então, o direito de arena é do clube mandante da partida. Isso permite, por exemplo, que Real Madrid e Barcelona façam contratos na casa das centenas de milhões de euros para ceder os direitos de suas partidas em casa, enquanto os demais times conseguem acordos com menos de 10% desse valor. O resultado se vê claramente ao olhar a tabela de um Campeonato Espanhol, por exemplo, cuja disputa se resume aos dois clubes maiores.

Ao exigir, por lei, que a venda seja coletiva, o sistema brasileiro impede que um clube seja economicamente dominante sobre o outro. É esse o princípio, por exemplo, que dita a regra nas ligas americanas, ainda o melhor modelo a ser olhado e adaptado para a realidade nacional. Só por curiosidade, a NFL, liga de futebol americano, não produziu, em sua história, um tricampeão seguido. Sempre há rotatividade entre os campeões, o que significa que todo torcedor pode sonhar em ver seu time vencer e, assim, consumir mais o produto futebol americano.

Enquanto uma liga com esses princípios de igualdade e pensamento no negócio não aparece em brasileiras, resguardemos o direito de arena. Só ele é capaz de evitar o egoísmo mesquinho e a politicagem vazia dos dirigentes que podem colocar, no longo prazo, o futebol num patamar desesperador de desequilíbrio financeiro que resulta em desinteresse do torcedor economicamente alijado da disputa por títulos.

O brasileiro adora se gabar de que tem o campeonato de futebol “mais equilibrado do mundo”. Para isso continuar a acontecer, é preciso repensar o modelo que agora tenta se criar.

Ou, então, garantir que ainda exista o direito de arena igualitário para os clubes. É ele quem impede, no atual momento, uma debandada geral que só enfraqueceria o futebol como negócio. Como falei aqui outro dia, os dirigentes têm de parar de enxergar o time rival como concorrente fora de campo e tratar de pensar coletivamente para ganhar mais.

Deixa a decisão do campeonato para dentro de campo. É mais legal. E muito mais honesto com o torcedor.

Por Erich Beting às 11h07

22/02/2011

A política, sempre a política

O tema não se esgota, até porque ainda não existe qualquer definição sobre ele. Mas claramente não será técnica a decisão sobre quem será (ou não) a televisão que transmitirá o Campeonato Brasileiro de 2012 a 2014.

Em respeito aos leitores que postaram seus comentários aqui no blog e que ainda não consegui ler e responder, vale uma reflexão que coloco a todos, tanto aos que acham ainda que tenho algum "lado" nessa história quanto aqueles que conseguiram entender sobre o ponto que queria chegar ao dizer que os clubes deveriam entender que não é o preço que define quem pode ser o melhor parceiro comercial.

Esqueçam aquilo que interfere no seu cotidiano como torcedor. Não é nisso que o dirigente está pensando, apesar de que, na hora de falar para a mídia, o discurso sempre seja politicamente correto e planejado. Uma reunião do Clube dos 13 sobre TV sempre conta com a presença dos presidentes dos clubes. E essas são figuras que não conseguem enxergar o negócio, mas sim a política dentro do esporte. Afinal, foi assim que a maioria chegou ao poder e é assim que boa parte continua a se manter no poder.

Por conta disso, toda a queda de braço que hoje envolve o futebol é de cunho político. Da desprezível discussão sobre a Taça das Bolinhas aos mais variados discursos de o que é "melhor" para os clubes enquanto parceiro comercial.

O levante que o Corinthians está prestes a realizar servirá para minar o último adversário político de Ricardo Teixeira. No ano passado, Fábio Koff se colocou contra a CBF e conseguiu vencer a batalha, reelegendo-se para a presidência do Clube dos 13 apoiado pelo São Paulo, outro rival político do presidente da CBF. Agora, com o pretexto da TV, o Corinthians vai usar sua força política para implodir de vez o C13.

O movimento tornaria insolúvel a discussão em torno do C13, o que tornaria a entidade inútil para o futebol, uma vez que ela não é uma liga que organiza o Campeonato Brasileiro, mas sim uma mera negociadora de contratos relativos ao torneio, que por sua vez tem a chancela única da CBF.

Em 2009, a CBF tomou para si a gestão da Série B do Campeonato Brasileiro, acabando de uma hora para outra com os poderes da FBA, a Futebol Brasil Associados, entidade que tinha até mais poderes sobre a competição do que o C13 tem sobre o Brasileiro da Série A.

Será que a TV é realmente o ponto de discussão do atual cenário do futebol brasileiro?

Por Erich Beting às 13h34

21/02/2011

Debate sobre a TV do Brasileiro se resume ao preço?

"Não importa se vem do Jardim Botânico ou da igreja. Leva quem der o maior cheque". A pérola é de Alexandre Kalil, presidente do Atlético-MG e revela um pouco do pensamento tacanho que toma conta dos dirigentes do futebol brasileiro na discussão sobre os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de futebol para o triênio 2012-2014.

Na visão apequenada do presidente do Galo, o que determina quem é o melhor parceiro comercial dos clubes é o dinheiro, nada além disso.

Nada que surpreenda, vindo de um dirigente que prega que o marketing representa apenas custo para um clube, não tendo qualquer utilidade além disso. Mas a frase de Kalil preocupa, principalmente, porque a ganância dos dirigentes tem feito com que o futebol brasileiro deixe de pensar no longo prazo para agir apenas no curto espaço de tempo, o que enfraquece a própria instituição.

Ao se balizar apenas pelo preço que é pago, os clubes colocam em segundo plano alguns detalhes importantes para o fortalecimento de seu produto no longo prazo. Não é só quem paga mais que vale mais. Não é o cheque que determina o valor de uma oferta. Ou pelo menos não deveria ser.

Nos anos 80, o Comitê Olímpico Internacional (COI) decidiu mudar radicalmente a imagem que as pessoas tinham dos Jogos Olímpicos. Para isso, apostou numa estratégia interessante de negociação do seu principal evento. Não era o preço que determinava qual emissora exibiria a competição, mas sim o engajamento dela com o evento e, principalmente, o alcance que ela teria no seu país. A lógica do comitê com essa decisão era fazer com que, com mais gente assistindo a seu evento, mais importante ele passaria a ser no longo prazo. E, aí, mais dinheiro o COI ganharia com a negociação não apenas da transmissão do torneio, mas também de patrocinadores e consumidores.

No futebol, a Fifa também buscou na Copa do Mundo de 2010 uma parceria comercial com a Sony que não foi baseada meramente no dinheiro. Com a fabricante japonesa, ficou estabelecido que além de pagar para ser patrocinadora da entidade, ela investiria na tecnologia necessária para transmitir 25 dos 64 jogos da competição em 3D. O retorno de imagem da Fifa com isso foi gigantesco, tanto que ela ganhou prêmio pela inovação no evento esportivo.

A concorrência que busca apenas o melhor preço domina, hoje, a gestão pública brasileira. Não se pensa na melhor entrega de produto, mas apenas naquilo que aparentemente gere mais dinheiro ou reduza mais custo para o cofre público. Não se faz nada pensando em melhor produto, em entrega mais eficiente e em melhor promoção daquilo que é feito.

É essa mentalidade que domina agora não apenas Alexandre Kalil, mas a maioria dos dirigentes dos clubes de futebol.

Recentemente, o Campeonato Catarinense de futebol optou por trocar de emissora, baseando-se na oferta financeiramente mais vantajosa e na promessa de que o jogo disputado nas noites de meio de semana começariam às 20h. Oferta aceita, começou o torneio e percebeu-se que a Record, que havia vencido a concorrência, não tinha retransmissora no interior do estado, limitando as transmissões à cidade de Florianópolis...

Nada contra a Record ou a favor da Globo. Mas, se quiserem pensar no longo prazo, os clubes têm de olhar muito mais do que o preço. Independentemente de qual é o cheque, o importante é saber quem é o parceiro e o que ele tem a oferecer. Essa é a melhor oferta possível para os clubes, que precisam ao mesmo tempo exigir isso de seu parceiro.

Por Erich Beting às 10h18

Sobre o autor

Erich Beting passou pela Folha de S.Paulo, foi repórter especial do diário Lance!, criou em 2005 a Máquina do Esporte, veículo pioneiro na cobertura dos negócios do esporte no Brasil e atua como comentarista do canal BandSports. É consultor editorial da Universidade do Futebol e professor dos cursos de pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo da Universidade Gama Filho, da Faculdade Trevisan e da Universidade Anhembi-Morumbi.

Sobre o blog

Erich Beting escreve sobre negócios do esporte e analisa o noticiário do ponto de vista econômico, do marketing e da gestão esportiva.

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